(publicado no FB em 15 de maio de 2014)
Estamos
em ano de copa do mundo! Que beleza! E ela será aqui no Brasil! Que maravilha!
Mas por que o povo não está feliz? Por que o clima de revolta e indignação?
Será que acordamos? Será que todos estão vendo o que eu sempre enxerguei desde
a minha infância? Então pode ser este o momento de pensar sobre a importância
exagerada que temos dado a este esporte e o quanto a nossa preocupação com a
diversão nos tira do foco daquilo que é realmente importante para todos nós.
O
detalhe que mais tem me chamado atenção é que finalmente os brasileiros –
especialmente os fãs deste esporte – estão recuperando a lucidez e voltando à
razão quanto ao fato que o futebol, como “o outro ópio do povo” não serve para
aliviar as dores oriundas dos problemas de saúde, habitação, educação e
segurança que são grandes neste país. Finalmente, Zezinho chama Pedrinho para
jogar bola, e este responde que não vai porque tem dever de casa para fazer.
Já
diz o slogan: esporte é vida; mas esporte não é só futebol. Tudo o que existe
para ser bom pode fazer mal quando é levado ao extremo. Concordando ou não, nós
fizemos isto com o futebol. Ele é excelente para tirar garotos das drogas, da
pobreza, das ruas e da criminalidade. Mas ele se torna mau quando gera frutos
maus; quando se torna mais importante do que as prioridades de um povo; quando
o jogador se torna mais importante que o operário; quando a bola no gramado
vale mais que a vida.
Chegamos
a isto por aqui. Em contraste com os bilhões de brasileiros, a classe de
jogadores de futebol é uma elite muito bem segregada e enxuta. Você sabe como é
a vida de um jogador de futebol profissional da primeira divisão? Sabe quantos
profissionais são mobilizados para que um jogador destes obtenha o seu melhor
desempenho? Eles não apenas se alimentam bem; eles têm nutricionista para
orientar a alimentação, contam também com uma boa academia com preparador
físico, médico, dentista, massagista, psicólogo e até conselheiro espiritual da
sua crença religiosa. É pouco menos que a vida de um rei. E tudo isto para que?
Para gerar entretenimento; diversão. Diversão, aliás, que começa no campo, pois
eles mesmos também se divertem afinal, por definição, futebol é jogar bola.
Então estes homens estão levando uma vida de sultões, e ganhando salários de faraós
para, no fim das contas, se divertirem como os moleques que são.
Agora
imagine dar esta qualidade de vida a um trabalhador rural, aos operários da
construção civil, aos funcionários públicos dos serviços essenciais, aos
operadores da bolsa de valores, aos caixas e gerentes dos bancos públicos e
privados. Eles produziriam muito mais, não é mesmo? Imagine você com toda esta
estrutura lhe dando apoio para que você faça o seu trabalho na sua profissão?
Não seria maravilhoso? Pois é; mas só eles têm isto.
Quando
eu penso na trajetória de vida de um homem como Joaquim Barbosa, presidente do
supremo tribunal federal; quando penso no quanto ele teve que estudar para
chegar lá; quando penso no salário dele em contraste com o salário de um
jogador de futebol profissional da primeira divisão, eu enxergo o que muitos
brasileiros ainda não vislumbram: nós criamos monstros. Dúzias deles.
O
que estes homens estudaram para serem o que são? E não questione apenas O QUE,
mas O QUANTO eles estudaram. Eles ao menos fizeram faculdade de educação
física? São pós-graduados no esporte chamado futebol? Fizeram mestrado e/ou
doutorado em justiça futebolística pelo menos? Que formação secular eles
apresentam para justificar o recebimento dos salários que os tornam milionários
anualmente? Não. Eles nem sequer sabem cantar o hino nacional do início ao fim
e ainda enchem o peito quando dizem que estão defendendo o Brasil no futebol.
Isto é irrelevante porque, se não existisse futebol, não haveria necessidade de
se representar o país neste esporte.
Eu
admito: não gosto de futebol desde criança. Mas se eu tivesse crescido gostando
disso eu já teria desgostado, porque quando eu sinto que alguma coisa que eu
gosto ameaça me fazer mal ou quando eu me sinto trapaceado por alguma coisa ou alguém,
eu me afasto de tal pessoa ou coisa. Por isto nunca gostei de cigarro – por
exemplo. E que ninguém me chame de antipatriota ou antinacionalista, porque aí
eu vou ter que chamar a estes de hipócritas.
“Hipócritas?”
_Vocês perguntariam. E eu responderia: sim, hipócritas. Só resolveram protestar
contra o futebol em ano de copa do mundo e isto porque neste ano ela vai
acontecer no Brasil, mas porque já não protestam todos os anos nos campeonatos
estaduais? Por que não protestam no campeonato nacional – o famoso brasileirão?
Porque não protestaram na copa das confederações? Por que não protestam contra
a “Libertadores da América”? Ninguém faz uma pausa para refletir sobre a
quantia absurda em dinheiro movimentada por estes eventos, nem sobre a afronta
e desigualdade sociais nas quais alguns jogadores que por pouco escapam do
analfabetismo, ganham mais do que o presidente da república e levam a vida
sonhada por todo pedreiro, agricultor, professor e carteiro.
A
realidade, querido leitor, é que algumas coisas estão muito erradas em nosso
país e, não por acaso, são as coisas que têm sido mais valorizadas pelo cidadão
brasileiro nestes meses que antecedem o campeonato mundial. E algumas destas
coisas são: a educação e a saúde assoladas pelo descaso; e a política que cria
um milhão de argumentos retóricos para deixar tudo como está enquanto a
corrupção prospera. Desculpem-me, mas quanto a isto eu sou muito radical: o
futebol chamado profissional não deveria existir no Brasil enquanto os
problemas nestes segmentos não fossem erradicados. É a velha lição dos pais
para os filhos: jogar bola é brincadeira e nós só vamos poder brincar depois de
ter feito todo o dever de casa.
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