quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DEVOCIONAL 6 - O ópio do povo que Karl Markx não viu nem previu

(publicado no FB em 15 de maio de 2014)


Estamos em ano de copa do mundo! Que beleza! E ela será aqui no Brasil! Que maravilha! Mas por que o povo não está feliz? Por que o clima de revolta e indignação? Será que acordamos? Será que todos estão vendo o que eu sempre enxerguei desde a minha infância? Então pode ser este o momento de pensar sobre a importância exagerada que temos dado a este esporte e o quanto a nossa preocupação com a diversão nos tira do foco daquilo que é realmente importante para todos nós.

O detalhe que mais tem me chamado atenção é que finalmente os brasileiros – especialmente os fãs deste esporte – estão recuperando a lucidez e voltando à razão quanto ao fato que o futebol, como “o outro ópio do povo” não serve para aliviar as dores oriundas dos problemas de saúde, habitação, educação e segurança que são grandes neste país. Finalmente, Zezinho chama Pedrinho para jogar bola, e este responde que não vai porque tem dever de casa para fazer.

Já diz o slogan: esporte é vida; mas esporte não é só futebol. Tudo o que existe para ser bom pode fazer mal quando é levado ao extremo. Concordando ou não, nós fizemos isto com o futebol. Ele é excelente para tirar garotos das drogas, da pobreza, das ruas e da criminalidade. Mas ele se torna mau quando gera frutos maus; quando se torna mais importante do que as prioridades de um povo; quando o jogador se torna mais importante que o operário; quando a bola no gramado vale mais que a vida.

Chegamos a isto por aqui. Em contraste com os bilhões de brasileiros, a classe de jogadores de futebol é uma elite muito bem segregada e enxuta. Você sabe como é a vida de um jogador de futebol profissional da primeira divisão? Sabe quantos profissionais são mobilizados para que um jogador destes obtenha o seu melhor desempenho? Eles não apenas se alimentam bem; eles têm nutricionista para orientar a alimentação, contam também com uma boa academia com preparador físico, médico, dentista, massagista, psicólogo e até conselheiro espiritual da sua crença religiosa. É pouco menos que a vida de um rei. E tudo isto para que? Para gerar entretenimento; diversão. Diversão, aliás, que começa no campo, pois eles mesmos também se divertem afinal, por definição, futebol é jogar bola. Então estes homens estão levando uma vida de sultões, e ganhando salários de faraós para, no fim das contas, se divertirem como os moleques que são.

Agora imagine dar esta qualidade de vida a um trabalhador rural, aos operários da construção civil, aos funcionários públicos dos serviços essenciais, aos operadores da bolsa de valores, aos caixas e gerentes dos bancos públicos e privados. Eles produziriam muito mais, não é mesmo? Imagine você com toda esta estrutura lhe dando apoio para que você faça o seu trabalho na sua profissão? Não seria maravilhoso? Pois é; mas só eles têm isto.

Quando eu penso na trajetória de vida de um homem como Joaquim Barbosa, presidente do supremo tribunal federal; quando penso no quanto ele teve que estudar para chegar lá; quando penso no salário dele em contraste com o salário de um jogador de futebol profissional da primeira divisão, eu enxergo o que muitos brasileiros ainda não vislumbram: nós criamos monstros. Dúzias deles.

O que estes homens estudaram para serem o que são? E não questione apenas O QUE, mas O QUANTO eles estudaram. Eles ao menos fizeram faculdade de educação física? São pós-graduados no esporte chamado futebol? Fizeram mestrado e/ou doutorado em justiça futebolística pelo menos? Que formação secular eles apresentam para justificar o recebimento dos salários que os tornam milionários anualmente? Não. Eles nem sequer sabem cantar o hino nacional do início ao fim e ainda enchem o peito quando dizem que estão defendendo o Brasil no futebol. Isto é irrelevante porque, se não existisse futebol, não haveria necessidade de se representar o país neste esporte.

Eu admito: não gosto de futebol desde criança. Mas se eu tivesse crescido gostando disso eu já teria desgostado, porque quando eu sinto que alguma coisa que eu gosto ameaça me fazer mal ou quando eu me sinto trapaceado por alguma coisa ou alguém, eu me afasto de tal pessoa ou coisa. Por isto nunca gostei de cigarro – por exemplo. E que ninguém me chame de antipatriota ou antinacionalista, porque aí eu vou ter que chamar a estes de hipócritas.

“Hipócritas?” _Vocês perguntariam. E eu responderia: sim, hipócritas. Só resolveram protestar contra o futebol em ano de copa do mundo e isto porque neste ano ela vai acontecer no Brasil, mas porque já não protestam todos os anos nos campeonatos estaduais? Por que não protestam no campeonato nacional – o famoso brasileirão? Porque não protestaram na copa das confederações? Por que não protestam contra a “Libertadores da América”? Ninguém faz uma pausa para refletir sobre a quantia absurda em dinheiro movimentada por estes eventos, nem sobre a afronta e desigualdade sociais nas quais alguns jogadores que por pouco escapam do analfabetismo, ganham mais do que o presidente da república e levam a vida sonhada por todo pedreiro, agricultor, professor e carteiro.


A realidade, querido leitor, é que algumas coisas estão muito erradas em nosso país e, não por acaso, são as coisas que têm sido mais valorizadas pelo cidadão brasileiro nestes meses que antecedem o campeonato mundial. E algumas destas coisas são: a educação e a saúde assoladas pelo descaso; e a política que cria um milhão de argumentos retóricos para deixar tudo como está enquanto a corrupção prospera. Desculpem-me, mas quanto a isto eu sou muito radical: o futebol chamado profissional não deveria existir no Brasil enquanto os problemas nestes segmentos não fossem erradicados. É a velha lição dos pais para os filhos: jogar bola é brincadeira e nós só vamos poder brincar depois de ter feito todo o dever de casa.

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