segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A MORTE PREFERE OS IMPRUDENTES

“... porque meu povo se perde por falta de conhecimento; por teres rejeitado a instrução...” - Oséias 4:6


Em 31 de julho de 2014 Vrajamany Fernandes Rocha, um menino de 11 anos introduziu o braço direito na jaula de um tigre no zoológico da cidade de Cascavel - PR. Apesar das advertências junto da jaula do animal e dos avisos de outros visitantes do zoológico que presenciaram a aproximação do menino, o pai ignorou o perigo e deixou que o garoto continuasse se arriscando. O tigre atacou Vrajamany, que teve o braço direito amputado.

No dia 07 de janeiro de 2015 dois terroristas atacaram a redação do semanário Charlie Hebdo em Paris – França e mataram 12 pessoas. O ataque ocorreu como reação a uma publicação que trazia uma charge do profeta Mohamed (Maomé), sendo que o povo de crença islâmica (sejam extremistas ou não) reprova terminantemente qualquer tentativa de representar graficamente o profeta, ainda que na melhor intenção de retratá-lo.

Já na Indonésia, na madrugada do dia 18 de janeiro de 2015, o brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira de 53 anos foi executado por fuzilamento, condenado por tráfico de drogas pelas leis daquele país. Marco era instrutor de voo livre e estava preso desde 2004, quando tentou entrar naquele país com 13 quilos de cocaína escondidos nos tubos de uma asa delta.

Ainda que sejam eventos distintos e, aparentemente sem qualquer ligação entre si, há um ponto comum no qual tais eventos se tocam. Este ponto pode ser expresso por uma pergunta: por que expor a si mesmo e/ou outras pessoas a um perigo que tem 100% de chance de se concretizar? Entretanto, a despeito da grande estupidez que certos riscos possam representar, existem pessoas que enxergam em certas escolhas e atitudes algum ganho que supera o valor de permanecer vivo ou fisicamente íntegro.

O garoto Vrajamany se arriscou porque só queria acariciar o tigre. Além do ticket de entrada no zoológico, a sua experiência de contato direto com a natureza selvagem lhe custou também o braço. Duvido que ele pense, sendo uma criança em idade escolar, que o prazer de tocar no tigre tenha compensado a sua perda. Então eu pergunto: nós poderíamos afirmar que Vrajamany é ou foi corajoso? Não; ele foi imprudente, inconsequente e irresponsável. Poderia ter morrido e perdido uma vida inteira pelo simples prazer de um momento que lhe pareceu mais importante que a própria vida.

Certamente os leitores dirão que eu estou sendo duro demais, afinal crianças são crianças e não se pode esperar que crianças sejam mesmo prudentes, nem exigir que não sejam inconsequentes ou que tenham responsabilidade como os adultos, mas com 11 anos eu já sabia que nunca devia enfiar o meu braço na jaula de um tigre, tanto porque eu via os filmes do Tarzan e já sabia que os animais selvagens, além de irracionais são também hostis, quanto porque os meus pais impunham-me limites. Além disto, em outras famílias encontramos garotos da mesma idade que já conhecem e praticam o respeito a regras e o bom senso que eles aprenderam em casa com os pais. Logo, além de ter perdido a chance de preservar a integridade física de Vrajamany, o seu pai perdeu também a boa oportunidade de contribuir com a formação do senso comum do seu filho, educando-o quanto ao respeito às proibições, o acato à autoridade paterna e a auto preservação.

Embora não seja de conhecimento geral, o ataque terrorista ao semanário francês tem antecedentes históricos muito polêmicos. Em 30 de setembro de 2005 na Dinamarca, o jornal Jyllands-Posten publicou 12 desenhos que escandalizaram o mundo muçulmano. Num destes desenhos, feito pelo jornalista Kurt Westergard, o profeta Maomé foi retratado usando um turbante em forma de uma bomba com um pavio aceso. Ou seja: os muçulmanos estavam em paz como o tigre no seu lugar de descanso e a imprensa os provocou gratuitamente.

Esta publicação irritou os extremistas islâmicos que reagiram em duas retaliações: na primeira, em 2008, a Al Qaeda explodiu um carro bomba diante da embaixada da Dinamarca em Islamabad - capital do Paquistão. A segunda foi um atentado pessoal contra Kurt Westergard - autor da charge de Maomé - que teve o seu apartamento invadido em 1º de janeiro de 2010 por um jovem somali de 28 anos, o qual atacou Kurt com um machado e uma faca.

Foi neste momento que o Charlie Hebdo, que até então não tinha participação alguma nesta história, envolveu-se nos fatos. Em solidariedade ao Jyllands-Posten, o semanário francês reproduziu as 12 charges em 2006, argumentando a contribuição das caricaturas para a discussão sobre a liberdade de expressão. A resposta dos extremistas viria em um ataque à bomba na redação do Charlie Hebdo em 2 de novembro 2011, após a publicação de outra charge, na qual o profeta Maomé é representado em outra caricatura ao lado da mensagem: "100 chibatadas se você não morrer de rir". Este ataque não teve vítimas e o semanário contra atacou com outra charge onde um muçulmano aparece trocando um beijo gay com um cartunista do Charlie Hebdo, acompanhado da mensagem "O amor é mais forte que o ódio". No massacre do dia 07 de janeiro de 2015, os extremistas do grupo estado islâmico declararam ter vingado o profeta Maomé. 12 vidas foram tiradas pelas 12 charges que deram origem a toda a esta história.

Nada justifica o massacre dos terroristas contra o jornal francês; mas os jornalistas do Charlie Hebdo, conquanto sejam vítimas de fato, não são de todo isentos de responsabilidade. A sabedoria popular brasileira enuncia que chumbo trocado não dói. Assim, se a imprensa ocidental tocou no que é mais sagrado e sensível para os muçulmanos, estes, numa reação a isto, tocaram no que é mais sagrado para os jornalistas: a vida e a liberdade de expressão. E da mesma forma que a tragédia do garoto Vrajamany era perfeitamente evitável, as mortes no Charlie Hebdo também eram. Bastava bom senso, respeito aos limites e, no caso do Charlie Hebdo, proveito dos bons exemplos da história.

Entretanto, o único proveito que se observou foi político. Uma maciça mobilização de franceses e chefes de estado no centro da cidade de Paris. Tudo redundou em política e os papéis ficaram muito bem definidos. Os terroristas são de fato os vilões desta história; assassinos que – é claro – precisam ser combatidos. O povo francês foi às ruas reafirmando o ideal de igualdade, liberdade e fraternidade, numa reafirmação até nostálgica destes ideais. Os chefes de estado que souberam aproveitar fizeram-se presentes para garantir a sua fatia de prestígio político. Tudo isto, porém, não reverteu a situação dos 12 mortos no atendado que, desgraçadamente, não deixaram de baixar às suas respectivas sepulturas, enquanto os co-responsáveis por este crime, a saber: aqueles que incitaram os terroristas a praticá-lo, estão em liberdade sob o manto de vítimas dos inimigos da liberdade de expressão.

Estaria eu insinuando que devemos temer os terroristas? Não. Violência não é e jamais será uma forma de impor respeito. Terroristas são criminosos que desejam impor os seus pensamentos pela força do terror. Temê-los seria aceitar que eles estão certos por serem capazes de matar sem piedade. Hitler, Stalin e Mussolini agiram assim e a comunidade mundial não pode aceitar a ditadura do terror. Mas por que provocá-los, quando sabemos que eles são portadores de uma natureza extremista, cruel e assassina? Isto não é semelhante a provocar um tigre em seu espaço e depois meter o braço na sua jaula? Pois eu digo que entre os terroristas do estado islâmico e os jornalistas franceses, não há quem tenha razão e esteja certo naquilo que fez.

Falando de liberdade de expressão, eu não sou e jamais serei contra tal liberdade. Sem ela, eu não poderia vir aqui expressar as minhas opiniões. Mas eu encaro a liberdade com o respeito e a prudência que a liberdade requer. Toda liberdade é um bem precioso que precisa ser valorizado, respeitado e mantido. Porém, em contrapartida, a liberdade de expressão não é e jamais será uma permissão ou incentivo para o desrespeito às religiões. Embora não pareça, liberdade também é uma forma de poder que, como tal, segundo o célebre barão Acton, também corrompe. O Brasil não era de todo livre nos tempos da ditadura militar e, após vinte anos sem liberdade, ninguém estava preparado para usá-la de maneira racional e sóbria. A liberdade é um poder que não pode e não deve ser exercido de maneira leviana e irresponsável, mas todos nós, seja como cidadãos ou como povo, temos sido vítimas do péssimo uso temos feito da liberdade pela qual tantos mártires morreram nos tempos da ditadura.

As evidências disto estão nas escolas, na mídia e, como resultante de ambas, nas famílias. Se no passado o autoritarismo endossava os maus tratos de professoras contra os seus alunos, agora é a liberdade sentida pelos alunos que lhes dá segurança para aterrorizar, agredir e até matar professores. Se no passado os artistas e os jornalistas clamavam por liberdade de expressão, hoje são outros artistas que fazem uso da liberdade conquistada para, através de novelas e filmes, ensinar e incentivar a prostituição, o adultério, a corrupção e a desintegração disfarçada de desconstrução da família, da sua estrutura, dos seus valores e dos seus fundamentos. E é exatamente esta liberdade mal educada, desorientada e irracional que está por detrás da certeza da impunidade tão comum aos criminosos brasileiros. Criminosos como, por exemplo, os traficantes. O que nos leva ao último personagem desta série de desventuras.

O brasileiro Marco Archer, esportista reconhecido, enxergou vantagem na prática do tráfico de drogas e concluiu que isto valia mais do que a sua própria vida. Ao fazê-lo, Archer assumiu o risco de perdê-la. Todos nós reconhecemos que é brutal, é intolerante e inflexível matar um estrangeiro que poderia simplesmente ter sido extraditado para ser punido no Brasil e proibido de retornar à Indonésia. Mas o pensamento no qual se baseia a justiça da Indonésia é fácil de entender: se um estranho entra na casa alheia armado e com a intenção de matar os filhos dos donos daquela casa, então os donos da casa têm o direito de matar o invasor em um ato de legítima defesa. Ora, o que são traficantes de drogas senão mercadores de insanidade e morte, que entram no país alheio com venenos que matam os filhos de uma nação? Logo, o que a justiça da Indonésia faz com os traficantes não é outra coisa senão matar em legítima defesa. Isto é um argumento fácil de entender e impossível de derrubar.

Qualquer jurista argumentaria que seria mais fácil extraditar um criminoso para se livrar dele, mas ao prender, julgar, condenar e executar um traficante estrangeiro, a justiça da Indonésia faz dos traficantes presos exemplos para os demais traficantes pelo mundo e manda um recado para todos eles: que não tentem levar drogas para a Indonésia, pois, se o fizerem, terão o mesmo destino. 

Em suma, queridos leitores, eu sinto muito, mas eu não sou Charlie. Não posso me afinar pelo diapasão destas pessoas. Respeito muito os jornalistas e faço minhas as palavras do jurista Ives Gandra Martins, segundo o qual a imprensa e seus veículos são os pulmões da democracia. Mas havendo dois lados em guerra, a paz não é possível se ambos são intransigentes. Alguém tem que abrir mão da razão para que haja paz e todo pacifista é, por natureza, superior.

Como cristão eu não sou a favor da pena de morte. Quem não tem o poder de devolver a vida também não tem o direito de tirá-la. Eu entendo e lamento o sofrimento da família de Marco Archer, embora eu não perca de vista que este sofrimento, além do risco de perder a própria vida, poderiam ter sido ponderados na relação custo e benefício da sua infeliz escolha.

Que os exemplos do passado registrados pela história continuem servindo para que saibamos aproveitá-los para nos desviar de tropeços futuros. E que nós saibamos ser sóbrios na definição do que realmente importa, para que a inversão de valores não tome o lugar do bom senso e vida não perca o status de bem mais precioso do ser humano.