quarta-feira, 30 de setembro de 2015

SOBRE NÃO ACEITAR DOCES DE ESTANHOS

Eu não estou aqui para alfinetar as pessoas... Sou profissional de enfermagem e não um alfaiate. Não espéto com alfinetes. Ao invés disso eu cravo agulhas de injeção (faço com gosto), e hoje estou aqui para cravar uma agulha 40 x 12 em uma minoria que ouviu o galo cantar, sabia onde era, mas seguiu pro lado oposto. E por motivos de economia, não vou trocar a agulha a cada estocada profunda e larga. Já faz tempo que eu não escrevo nada mais extenso, pois admiti que, entre as muitas vergonhas do brasileiro está a de não ser afeito à leitura e preferir os textos rápidos daquilo que eu chamo de “fast-food literário”. Então eu desisti de cansar a minha criatividade na busca pela melhor maneira de instigar as pessoas a lerem o texto até o fim. Se a escola não fez isto enquanto ganhava para tal, não serei eu quem vai fazer isto gratuitamente.

Agora que já passou, eu fico mais a vontade pra comentar: eu vi uma postagem aqui e ultimamente eu tenho me esforçado pra praticar a virtude de evitar discussão que não leva a nada, simplesmente por não “pagar pau”. Pois é... mas me incomodou uma fala do Dr. House: “Se ninguém te detesta, se ninguém te odeia, se você não irrita ninguém, tem algo errado com você...” Levei isto pra Bíblia (sempre faço isto) e percebi que Jesus foi detestado e odiado porque irritou os legalistas judeus – que não eram poucos – e também os membros do império romano – que eram muitos. Então, não vou pedir desculpas. Como cristão protestante, e ex-aspirante a mago, vou irritar alguns pretensos feiticeiros, um ou outro bruxo e não poucos satanistas.

A postagem propunha uma brincadeira pedante, do tipo que se vê naquelas pegadinhas estúpidas da TV que um dia ainda vão matar um cardiopata pras pessoas rirem... Como deixar um evangélico em crise: ofereça a ele uma bala, espere que colocar na boca e diga: era de Cosme e Damião.

A quem interessar possa: Cosme e Damião na verdade se chamavam Acta e Passio. Eles nasceram em Egeia (agora Ayas, no Golfo do İskenderun, Cilícia, Ásia Menor), e tinham outros três irmãos. Sua mãe se chamava Teodata, e também é venerada como santa pelos ortodoxos. Eles eram médicos e o trabalho deles não tinha nada a ver com doces e balas. Se eles ainda fossem vivos, ou se pudessem ver o que fazem hoje com o nome e o trabalho deles, moveriam um bom processo por danos morais (eu moveria sem pena) por criar e incitar a idolatria a eles, bem como um comércio imoral por parte dos católicos e pior: por associar os nomes deles à feitiçaria, à bruxaria e à crença na reencarnação. Essa última bronca seria para os espíritas da umbanda, candomblé, queto e araqueto (isto mesmo: aquela banda de axé tirou o seu nome daí).

Sejamos racionais: balas são feitas de açúcar. Esse açúcar é extraído da cana. E todos nós sabemos que a cana foi criada por Deus para que nós tirássemos dela este açúcar. Em 1 TIMÓTEO 4: 4 e 5 está escrito: “PORQUE TODA A CRIATURA DE DEUS É BOA, E NÃO HÁ NADA QUE REJEITAR, SENDO RECEBIDO COM AÇÕES DE GRAÇAS. PORQUE PELA PALAVRA DE DEUS E PELA ORAÇÃO É SANTIFICADA.”

Então basta orar agradecendo a Deus pela balinha, porque o capeta não pode misturar a peçonha dele na essência daquilo que o Senhor criou e nos deu como alimento, e que nós recebemos dando graças a Ele. Mas você pode perguntar: será que funciona? Respondo: sim, funciona. A garantia disto está em 1 JOÃO 4: 4, onde está escrito: FILHINHOS, SOIS DE DEUS, E JÁ OS TENDES VENCIDO; PORQUE MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO.

Eu conheci um homem que foi liberto do envolvimento com o culto aos mortos – que é o que fazem em todos os ritos do espiritismo, embora todo católico praticante seja também um espírita convicto mesmo que não se dê conta disto, porque presta culto a uma senhora morta. Aliás, senhora à qual chamam de “mãe de Deus”, quando Deus é autoexistente... (é muito contrasenso!).

Este homem que eu conheci me contou um dia como os cemitérios são invadidos às vésperas do dia 27 de setembro, para a coleta de ossos de defuntos que são ralados para a confecção das cocadas que são distribuídas junto com as balas nos pacotes de Cosme e Damião. Sei que isto choca a muitos, mas eu avisei lá no início que alguém ficaria incomodado. Já não é de hoje que o diabo seduz as pessoas pela promessa de poder. Há quem pense que está servindo a Deus ou caminhando para Ele, mas na verdade estão no caminho da necromancia, a qual, na Bíblia, está na lista de coisas que Deus deixa claro que abomina...

Para estas pessoas de fé equivocada por procurar a Deus no culto aos mortos quando Jesus Cristo é o Senhor da vida, Ele mesmo mandou um recado na Bíblia: “MAS TENHO CONTRA TI QUE TOLERAS JEZABEL, MULHER QUE SE DIZ PROFETISA, ENSINAR E ENGANAR OS MEUS SERVOS, PARA QUE SE PROSTITUAM* E COMAM DOS SACRIFÍCIOS DA IDOLATRIA. E DEI-LHE TEMPO PARA QUE SE ARREPENDESSE DA SUA PROSTITUIÇÃO; E NÃO SE ARREPENDEU. EIS QUE A POREI NUMA CAMA, E SOBRE OS QUE ADULTERAM COM ELA VIRÁ GRANDE TRIBULAÇÃO, SE NÃO SE ARREPENDEREM DAS SUAS OBRAS. E FERIREI DE MORTE A SEUS FILHOS, E TODAS AS IGREJAS SABERÃO QUE EU SOU AQUELE QUE SONDA OS RINS E OS CORAÇÕES. E DAREI A CADA UM DE VÓS SEGUNDO AS VOSSAS OBRAS”. (Apocalipse 2: 20 a 23).

( * ) Entendam o termo “prostituam” como uma infidelidade ao próprio Deus, pois na bruxaria e na feitiçaria não faltam o culto aos mortos e o culto aos “espíritos da natureza”, que na verdade são demônios que se apresentam assim para enganar aqueles que estão buscando poderes sobrenaturais fora da obediência ao Senhor da Vida.

Não sinto muito, não vou pedir desculpas e tenho dito. Quem não gostou, fique à vontade para me excluir e me bloquear, porque só assim mesmo conseguirão o prodígio (ainda que virtual) de desaparecer como todo bruxo e todo feiticeiro têm a pretensão de poder...

segunda-feira, 2 de março de 2015

RESENHA: CHOBITS - ちょびっツ = Chobittsu

Esta resenha foi escrita para comentar o desenho animado japonês (ou anime) intitulado CHOBITS, uma produção do grupo CLAMP (クランプ), formado pelas quatro artistas: Ageha Ohkawa (大川 緋芭), Mokona (もこな), Tsubaki Nekoi (猫井 椿) e Satsuki Igarashi (いがらし 寒月), também autoras de outros trabalhos conhecidos pelos fãs de mangás e animes, como: Sakura Cardcaptor (カードキャプターさくら), Kobato (こばと), Tsubasa Chronicles (ツバサ・クロニクル) e Angelic Layer (エンジェリックレイヤー). O nome original da série é escrito: ちょびっツ, e lê-se: CHOBITTSU. Como mangá (revista em quadrinhos com desenhos em preto e branco) Chobits foi publicado originalmente pela KODANSHA em 2001 e 2002. A versão em anime foi adaptada pela MADHOUSE (lt. casa louca) em uma série de 27 episódios, incluindo os capítulos 8.5, 18.5 e 24.5 que resumem seus episódios anteriores. Há ainda um especial cômico de curta duração, produzido após o final da série. A estréia no Japão, leste e sudeste da Ásia foi ao ar em 2 de abril de 2002 e terminou em 24 de setembro do mesmo ano. No Brasil, Chobits foi lançado pela JBC em 2003, em 16 volumes.

Vale esclarecer que existem dois gêneros de desenhos japoneses: o gênero: seinen (青年) que significa: "homem jovem" e compreende homens entre 20 e 40 anos, sendo, portanto, um desenho de caráter mais sério e picante; e o gênero Shōnen (少年) significa: “garoto” que é voltado para o público infanto-juvenil e, portanto de caráter mais inocente. CHOBITS se enquadra no gênero seinem.

Já deixo claro que conteúdo desta resenha é um spoiler. Se o leitor ainda não viu a série e não quer que eu estrague algumas surpresas, eu recomendo que antes assista a série e, se tiver paciência, também leia o mangá, pois é nele que está a estória original. Digitando “Chobits” no Youtube é possível encontrar a série inteira falada em japonês com legendas em português, assim como é possível encontrar o mangá traduzido para o português digitando: “chobits mangá” na busca do Google.

Considerando que o leitor poderá desejar conferir os comentários com o conteúdo do anime, é importante enfatizar que esta resenha observa a contagem sequencial dos capítulos de 1 a 27. Portanto, os capítulos 8.5; 18.5 e 24.5 são comentados aqui como sendo respectivamente os capítulos: 9; 20 e 27. Também a título de orientação vale enfatizar que esta resenha foge ao convencional por não conter breves resumos dos capítulos da série em anime e nem do mangá. Ainda assim, o volume do texto a seguir é consideravelmente grande. Em seu original, totalizou 23 páginas do Word; volume que o autor atribui à grande miríade de detalhes observados e dignos de serem comentados. Também não é objetivo desta resenha estabelecer uma comparação pontual da estória de Chobits em anime com a do mangá, embora recorra ao mangá para explicar eventos não muito claros no anime.

Eu tomei conhecimento da existência do anime Chobits em 2006, devido à minha amizade com uma fã de mangás e animes. O foco da curiosidade na ocasião foram as orelhas da personagem principal, detalhe que também será explicado nesta resenha. Porém em 2014, devido ao empreendimento do autor no aprendizado do idioma japonês e da motivação pela convicção de que só se aprende mais rapidamente um idioma quando se estabelece uma convivência diária e prazerosa com o mesmo, o autor decidiu assistir a série, vislumbrando uma melhor oportunidade de aprendizado ao identificar-se com a situação da personagem de Chii, a qual, no início da trama, devido a sua perda de memória necessita reaprender tudo desde o zero; inclusive a conversação em Japonês. Daí a decisão por aprender junto com ela não apenas o idioma, mas algo da cultura e do senso comum do povo japonês. Porém, depois assistir a série em coisa de três ou quatro dias, sendo exposto à toda gama de emoções inerentes a ela e ter observado algumas particularidades, surgiu também a intenção de escrever esta resenha, para uma maior e melhor compreensão da complexidade do anime em sua dinâmica e em seus detalhes.


A seguir, a descrição dos personagens de Chobits:


Quem é Chii-Chan?



Chii (ちぃ)é a Chobit número dois e é a personagem central da estória. O penúltimo capítulo da série em anime vai revelar que seu nome original era Elda (エルダ - Eruda na pronúncia japonesa). O sufixo “Chan” é usado no Japão como um tratamento carinhoso dado às meninas e soa como diminutivo. Seria algo como chamá-la de “Chiizinha”.




Quem é Freya?

Freya (フライヤ - Fureya na pronúncia japonesa) é, por assim dizer, “irmã” de Eruda (Chii) e não possui outro nome, embora os seus fãs a chamem de Dark Chii ou A Chii Negra. As revelações do penúltimo capítulo vão esclarecer que ela foi a primeira Chobit a ser criada.






Quem é Hideki?

Hideki Motoswa (本須和秀樹), numa definição rápida, é um caipira. Ele está por fazer 19 anos e fracassa no seu primeiro exame vestibular (ronin como são chamados no Japão); e decide ir para Tókio para estudar, prestar novos exames e tentar ingressar na universidade. Por ter vivido sozinho no campo e não ter mais do que cavalos e bois com quem conversar, costuma falar sozinho em público e isto vai lhe render situações constrangedoras na cidade grande. Ele é um rapaz virgem e muito tímido, que tem fantasias eróticas com quase todas as mulheres que conhece, mas à vista de uma mulher seminua tem sangramento no nariz.


Por que Chii tem aquelas orelhas?

Como eu disse, esta foi a minha primeira curiosidade em Chobits. Chii é uma persocon (personal computer) e não apenas ela, mas todos os persocons têm orelhas assim. Acontece que, tal como os computadores atuais, os persocons possuem entradas e saídas que permitem toda classe de conexões. Estes cabos de saída e slots de entrada localizam-se na região onde um ser humano tem suas orelhas. Aquelas estruturas em forma de conchas que parecem substituir as orelhas nos Persocons são, na verdade, duas capas de fechamento hermético, feitas para proteger estas entradas e saídas de dados para que não acumulem sujeira e não molhem em contato com a água, pois os persocons também tomam banho e ocasionalmente ficam expostos à chuva.


Quem Hibya Chitose ou Hibya-San?

Hibya Chitose 日比谷 千歳 ) é a senhoria e zeladora do condomínio Gabu Jougazaki, onde Hideki irá morar quando chegar a Tókio. Por isto é chamada de Karinrin-san. Hibya-san é uma personagem pré existente do desenho Angelic Layer e, no universo de Chobits, ela é a viúva de Ishiro Mihara, outro personagem do mesmo desenho. A trama de Chobits vai revelar mais sobre a identidade dela.



Quem é Hiromu Shinbo?

Shinbo Hiromu (新保弘) é o morador do quarto vizinho ao de Hideki no condomínio Gabu Jougasaki. Ele é um rapaz da idade de Hideki, que também está se preparando para entrar na universidade. Possui um conhecimento comum de usuário de Persocon, pois possui uma unidade portátil chamada Sumomo (すもも), uma bonequinha muito esperta e ruidosa.




Quem é Takako Shimizu?

Shimizu Takako (清水多香子) ou Shimizu sensei como é chamada, será professora de Shinbo e Hideki no cursinho pré-vestibular. Ela leciona inglês, literatura e matemática. É uma mulher casada, mas o marido vai trocá-la por uma persocon.





Quem é Minoru-San?


 Kokubunji Minoru ( 国分寺 稔 ) também é outro personagem pré existente do desenho Angelic Layer. Trata-se de um garoto prodígio de 12 anos que herdou a fortuna dos seus pais. Ele é um gênio da informática e possui cinco Persocons, dentre as quais uma é a principal: Yuzuki (柚木). Além de ter mais recursos do que as outras quatro persocons, Yuzuki é uma réplica da falecida irmã de Minoru-san, na qual ele inseriu todas as lembranças e informações disponíveis sobre a sua falecida irmã, o que revela a sua extrema dificuldade de ter aceitado a morte da mesma. Minoru-san vai se tornar amigo de Hideki e ajudá-lo na investigação a respeito da origem e do passado de Chii. Sua participação, porém, será mais abrangente quando Chii passar por alguns apuros durante a trama.


Quem é Yumi Omura?

Ōmura Yumi (大村裕美) ou Yumi-Chan é uma jovem estudante de 17 anos que vai conhecer Hideki quando ele estiver procurando emprego para manter-se em Tókio. A estória original no mangá a identifica como funcionária do estabelecimento onde Hideki vai trabalhar – a cantina chamada Yoroconde (com prazer). Na adaptação para o anime, Yumi aparece como filha do proprietário da cantina. A estória  insinua  que ela irá se interessar por Hideki, o que acena com o risco de uma rivalidade entre ela e Chii, porém esta possibilidade desaparece quando a trama revela uma ligação passada e mal resolvida entre Yumi e Hiroyasu Ueda.


Quem é Hiroyasu Ueda?

Ueda Hiroyasu (植田 弘康) é um confeiteiro que tem um estabelecimento onde produz e vende doces feitos com receitas alemãs. Por seu status também é chamado Ueda Tenchou (gerente Ueda). Ele será patrão de Chii quando ela estiver em condições de trabalhar. Com Ueda, o autor da trama propõe uma situação profética: se no futuro informática podem não somente se apaixonarem por seus computadores, mas também desejarem se casar com eles. Ueda tem um passado triste ligado à primeira Persocon que ele teve e, em função disto, terá também um passado mal resolvido com Yumi-Chan.


Quem é Kojima Yoshiyuki ou Dragonfly?

Yoshiyuki Kojima ( 小島 良由起 ) (codinome Dragon-Fly – libélula em inglês) é um hacker que aparece na segunda metade da trama. Ele é rico e não tem escrúpulos. Vai ser atraído pelo fato de Chii ser uma Chobits e vai sequestrá-la para tentar invadir seu sistema e explorar o seu mistério. Azar dele.




SINOPSE DO ANIME CHOBITS

O cenário é o futuro; porém um futuro mais próximo da realidade atual sem alterações radicais. Nada de carros voadores, armas a laser e pessoas que desaparecem num lugar para reaparecer em outro. Nada de roupas futurísticas grudadas no corpo e botas. As pessoas usam jeans, ternos, swetters, jaquetas, vestidos, saias e calçam sapatos, tênis ou chinelos.

No imaginário da equipe CLAMP, a estória de CHOBITS propõe um futuro no qual, além de projetar – logicamente – a possível evolução da informática, propõe também as situações decorrentes da interação entre os seres humanos e os computadores do futuro. E no futuro proposto em CHOBITS os aparatos de informática que hoje fascinam as pessoas pela comodidade e infinidade de recursos que proporcionam, estariam reunidos em uma só máquina: o persocom (derivado de personal computer).

Os persocons não são robôs, não são androides, e nem são autômatos; eles são persocons. Eles não apenas reúnem em si todos os recursos dos aparelhos digitais que conhecemos hoje, mas possuem a inteligência artificial e a habilidade de – conforme a sua programação – simular a personalidade humana; tudo isto com um detalhe tão fascinante quanto perigoso: eles possuem a forma humana e interagem com a sociedade como pessoas reais. Disto decorre uma miríade situações que vão muito além da dependência cibernética já observada no mundo atual, como o envolvimento emocional entre seres humanos e seus persocons, que a trama de Chobits aborda de forma convincente, contundente e, até certo ponto, profética.

Neste cenário, as Chobits seriam um tipo especial, raro e muito mais avançado de persocons. Se os persocons normais são o máximo da informática, as chobits são a coroa dos persocons. Por isto a história atribui às Chobits uma lenda urbana, segundo a qual elas seriam dotadas do livre arbítrio, motivação própria e inteligência emocional, o que lhes confere a capacidade de agir além e independentemente da sua programação, sentindo emoções e, tomando decisões. Por tudo isto, as Chobits teriam a capacidade de buscar a felicidade individual no encontro de uma única pessoa para amarem e serem aceitas e amadas como são. Esta pessoa é tratada na estória como: “watashi dake no hito” ou “a única pessoa para mim”. Outras partes da estória também a identificam como “tokubetsuna no hito” ou “a pessoa especial”, ou ainda “watashi no tokubetsuna” (meu especial).

Como todas as respostas aos mistérios que envolvem Chii só são reveladas no penúltimo capítulo e as explicações para tudo se encontram na criação das duas Chobits, a sinopse da estória começa, na verdade, pela gênese de Freya e Eruda.

Ishiro Mihara e Hibiya Chitose são personagens pré-existentes, oriundos de outra estória em anime – porém do gênero shōnen – chamado: Angelic Layer. Em Chobits, Ishiro Mihara, vendo a impossibilidade da sua esposa Hibiya Chitose ter filhos, decidiu usar os dados recolhidos em sua pesquisa realizada nos Angelic Layers para criar o persocom e cria Freya: o primeiríssimo persocom. Porém, vendo todo potencial que um persocon poderia desenvolver, o governo decidiu intervir para limitar as habilidades dos persocons para os usuários comuns e usar os mais desenvolvidos para atuarem como agentes de inteligência e reguladores das atividades dos persocons no mundo inteiro. Isto causou descontentamento em Ishiro Mihara, que decidiu trabalhar em um laboratório secreto no subsolo e terminou a criação de Freya, uma persocom para substituir uma filha.

Ishiro deu o melhor do seu conhecimento para aproximar Freya da realidade de um ser humano e, por isto, Freya é a primeira das Chobits. Ela foi dotada da capacidade de desenvolver emoções e reações humanas e programada para encontrar a sua “pessoa especial” ou “a pessoa idônea” ou ainda “a única pessoa para mim”. Porém, o inesperado aconteceu: Freya encontrou o “meu especial” na pessoa de seu próprio pai e se apaixonou por ele, o que gerou um conflito moral e emocional em seu interior, pois Freya passou a reprimir o seu sentimento e com isto assumiu um comportamento distante e frio.

É preciso entender que Freya não é má, mas por sofrer de um amor que não pode ser correspondido, torna-se amarga e desenvolve a doença da depressão. Diante de tal comportamento e sem ainda conhecer a causa, Ishiro e Hibiya decidem criar Eruda, acreditando que Freya ficaria alegre por ter uma irmã. Freya de fato se alegra, mas continua a sofrer por amar a seu pai e o dilema moral a leva a entrar em colapso e deixar de se mover. É quando Eruda, movida de compaixão pela sua irmã, decide em segredo conectar-se a ela, salvando-a em seu sistema. Então ambas passam a compartilhar o mesmo corpo. Este fato (que passa desconhecido por todos que assistem à série e que só vai ser revelado nos últimos momentos da estória) vai dotar Eruda de uma dualidade que só vai ficar evidente no decorrer da trama: ela é doce, meiga e pura enquanto ninguém ameaçar a sua virgindade, mas, uma vez ameaçada, Freya aparece e assume o controle como a defensora de Eruda e... coitado do agressor!

Na adaptação do mangá para a série em anime há uma divergência. O mangá revela que Eruda (Chii) decide perder a memória ao salvar Freya dentro de si e pede aos pais que seja colocada onde outra pessoa possa encontrá-la, para que não corra o risco de também apaixonar-se pelo pai ao ter o seu sistema reiniciado. O que não é previsto por nenhuma das Chobits é que Ishiro Mihara adoece e morre após estes eventos. Já na série em anime ocorre diferente: o colapso de Freya leva-a a ser desativada. Temendo que o mesmo conflito moral ocorrido com Freya ocorra também com Eruda, os demais cientistas do projeto Chobits pressionam o casal Ishiro e Hibya para também desativarem Eruda. Sua “mãe” Hibiya, entretanto, apaga-lhe a memória  e a mantém em animação suspensa até encontrar alguém que possa cuidar dela e ensinar novamente tudo o que ela precisa aprender sobre a vida.

Tanto no mangá quanto no anime, a pessoa que irá encontrá-la será Hideki Motoswa. Reprovado no vestibular, ele se muda de Hokaido para Tókio com o propósito de estudar e prestar novos exames para ingressar na faculdade. Ao chegar a Tókio, Hideki vê de perto as persocons, das quais só tinha notícias enquanto vivia no campo. Ele também deseja ter uma persocon, mas é pobre e não tem como adquirir e nem manter uma. O sonho de Hideki, entretanto, se concretiza na sua primeira noite em Tókio: ele encontra Eruda desativada e descartada em uma pilha de sacos de lixo. No primeiro instante Hideki se desespera pensando tratar-se de um cadáver, até que percebe que se trata de uma persocon; então decide recolhê-la e leva-la para o quarto onde vive. Ao recolher Eruda, ele deixa cair e perde o pequeno disco de memória, cujo conteúdo não é revelado no anime e sim no mangá. A estória no mangá esclarece que aquele disco contém todo o backup de Eruda; todas as memórias e informações das quais ela precisaria para resgatar a sua identidade e ser uma persocon normal tal como era antes de ter sido desativada.

Uma vez em seu apartamento e em meio a muito despreparo, a primeira dificuldade de Hideki (que não entende nada sobre Persocons) é descobrir onde fica a tecla liga/desliga da persocon, até que vai encontrá-la na região da genitália. Como ao ser ligada, Eruda não sabe coisa alguma e a única coisa que diz é a palavra: “chii”. Devido a isto Hideki, no segundo episódio, decide dar a ela o nome Chii.

Por ter perdido a memória, Chii precisaria da instalação de programas para executar as funções de um persocom. Mas estes programas são caros e Hideki não tem como adquiri-los. Shimbo recomenda a Hideki que procure Minoru-san para pedir orientação e este levanta a suspeita de que Chii possa ser um exemplar de uma lenda urbana chamada Chobits. Nesta mesma visita, Minoru-san depara com duas dificuldades: Chii é protegida por algum programa que desativa qualquer outro persocon que for conectado a ela para examinar o seu sistema. Com isto, não é possível saber qual é o seu sistema operacional e nem instalar nela qualquer programa, pois há risco de um dano permanente que não poderá ser consertado, já que Chii é um modelo exclusivo e a identidade de quem a criou é desconhecida.

Hideki descobre que é proprietário de uma persocom rara, mas isto não é grande vantagem porque, sem saber os programas que pode instalar em Chii, Hideki terá que ensinar tudo à sua persoconzinha, desde o idioma até as tarefas mais elementares de comportamento social como andar na rua e identificar os objetos pelos nomes. Esta tarefa vai exigir paciência e render muito trabalho e angústia para Hideki, mas isto também vai construir um vínculo afetivo entre Chii e Hideki. Entretanto, Minoru-san percebe que Chii tem um programa de aprendizagem e é isto que vai ajudar Hideki em sua tarefa.

A inocência e ingenuidade de Chii vão colocá-la em perigo quando ela decidir procurar emprego e quando ela andar sozinha pelas ruas. Por duas vezes Chii vai ser sequestrada e vai sofrer tentativa de abuso sexual. Será nestes momentos que Chii dará lugar à Freya, que vai defendê-la de uma forma muito especial e emocionante. Esta atividade de Freya, entretanto, vai atrair a atenção do governo, que enviará Jima e Dita (dois persocons com sistema operacional igual ao de Chii) para encontrá-la e desativá-la.

Movido por arrependimento, Kojima Yoshiyuki (o segundo sequestrador de Chii) vai ajudar Minoru-san a investigar sobre a origem e o passado de Chii, mas será Yuzuki – a principal persocom de Minoru-san – quem vai conseguir invadir o sistema de informações do governo (representado pelo persocom Jima) e conseguir as informações desejadas. Este evento vai revelar o carinho pessoal de Minoru-san por Yuzuki. De posse das informações conseguidas por Yuzuki, Hideki descobre o envolvimento de Hibya-san com o passado de Chii e a procura para pedir respostas, mas ela desaparece proposital e temporariamente.

Quando se encontram, Hibya-san revela tudo a Hideki, o qual percebe a sua responsabilidade e importância para Chii. Chega então o momento da verdade: Chii declara o seu amor por Hideki e pede dele uma resposta. Hideki assume o seu amor por Chii, mas isto é apenas o início de um momento tenso, pois Chii tem uma programação especial até então desconhecida para cumprir ao encontrar a sua “pessoa especial”. Acontece então um momento dramático, no qual se envolvem Jima e Dita (dois persocons do governo), Freya (que assume o lugar de Chii) e Hibya-san que tem seu confronto final com Freya e atende ao pedido da filha de eliminá-la do sistema junto com Chii, sob os gritos desesperados de Hideki implorando que Hibya não o faça. Num último esforço, Hideki diz ao que sobrou da persocom o que é a felicidade e lhe declara o seu amor. Chii decide voltar para Hideki, cumpre a sua programação, e fica livre para ser feliz.

Análise:

Quando os primeiros desenhos animados foram criados pelos estúdios Walt Disney, eles eram voltados para crianças e não tinham o propósito de serem sérios, mas sim o de dar movimento e voz aos personagens dos livros de estórias que os pais liam para os seus filhos na hora de dormir e, com isto, encantar e divertir a criançada. A seriedade nos desenhos animados veio com os personagens das aventuras Marvel, anos depois, mas a seriedade daqueles desenhos lhes privou do encanto.

Porém os japoneses – como o mundo já está acostumado a testemunhar – foram além. Eles aceitaram o desafio e, mais do que conseguir inserir seriedade nas estórias contadas por desenhos animados, eles as tornaram encantadoras sendo simplesmente intensas e cativantes.

Quando um trabalho artístico chega a ser apresentado ao público, ele já passou por processos de pesquisa, avaliação e aprovação dos seus produtores. Se aos olhos dos artistas que criam é isto que faz cada trabalho ser único, sob o crivo do capitalismo é exatamente isto que faz com que todo trabalho artístico seja um produto. E o produto Chobits é composto dos melhores ingredientes para conquistar e cativar seus espectadores. Quem o concebeu soube usar os ingredientes certos nas proporções certas e aplicou como ninguém o modo de fazer.

Duas coisas são importantes para todo autor e/ou crítico de estórias de ficção: a construção dos personagens e o desenvolvimento da trama. Como é tão desnecessário quanto trabalhoso separar estas duas coisas quer seja para uma análise ou para uma crítica, eu admito não estar disposto a fazê-lo. Toda estória de ficção tem uma sequência lógica na qual os personagens e suas trajetórias de vida individual se ligam. Assim, no conjunto das estórias particulares dos personagens, o autor narra toda a estória principal. E a esta sequência lógica, bem como às ligações das trajetórias individuais dá-se o nome de trama ou enredo. E em Chobits a equipe CLAMP fez exatamente isto e fez muito bem feito.

O anime Chobits possui enredo ou trama no rigor destas duas palavras porque as suas autoras criaram uma espécie de teia psicoemocional na qual o carisma e a intensidade dos personagens envolvem sutilmente o espectador, conduzindo-o a encantar-se a apaixonar-se por eles e pelo conto, talvez muito mais no anime do que no mangá. A estratégia de mostrar o cenário e os personagens mais básicos para depois introduzir a personagem principal (embora isto não seja nenhuma novidade), funciona perfeitamente: quando Chii aparece, já estamos situados quanto a tempo, local, pessoas e circunstâncias.

A construção dos personagens é harmoniosa e admirável. As profissionais do grupo CLAMP criaram personagens serenos e carismáticos porque eles não fogem à realidade cotidiana, o que torna possível que expectador veja a si mesmo ou se identifique em alguns deles. A estratégia do autor para criar empatia, bem como uma ligação emocional entre o espectador e estes personagens é muito bem planejada. Também a ligação dos demais personagens entre si e de todos com Hideki e/ou com Chii, quer seja direta ou indiretamente é algo tão natural quanto as ligações de qualquer um de nós com nossos amigos no cotidiano.

No início, Chobits parece ser mais um desenho para divertir as pessoas; mas, na verdade, Chobits é uma novela. Aliás, uma novela séria que, à medida que se aproxima da metade dos seus capítulos se torna dramática e passa gradualmente a ser grave. A trama não fica devendo nada às novelas escritas por dramaturgos brasileiros, e gravadas com artistas reais. O superlativo da dependência cibernética é a grande tônica em Chobits; e o emprego do tempo futuro com o consequente aperfeiçoamento das tecnologias torna muito natural não só a evocação, mas a aceitação deste superlativo.

O desenho é divertido e descontraído, mas a sua crítica é séria: através de Chobits, o grupo Clamp dialoga com os otakus* e otomes** de todo o japão, chamando-os à razão.


> A título de esclarecimento, muitos japoneses encontram extrema dificuldade para se relacionar com outras pessoas, namorarem e casarem. Estudos são feitos para determinar as causas deste comportamento e a timidez é apontada como um dos obstáculos.

*Otaku é o termo que define os homens jovens e adultos que preferem se relacionar com personagens virtuais somente existentes em aparelhos digitais e, aparentemente, criados para tentar resolver a dificuldade de interação dos japoneses. Na Coréia há um caso real de homem que se casou com uma destas personagens com todos os requintes do cerimonial de núpcias.

**Otomes são mulheres que seguem as mesmas tendências e apresentam o mesmo perfil dos Otakus. Preferem se relacionar com dispositivos digitais ao invés de terem relacionamentos convencionais com pessoas reais.


Se os avanços da informática moderna acontecem em velocidade meteórica, a projeção disto para o futuro bem poderia ser a criação dos Persocons e se hoje já existem os Otakus e Otomes, do mesmo modo que, no ocidente, o homem já nos dá provas de que pode se apaixonar por máquinas como o próprio carro e/ou o computador; e se através da informática já protagoniza casos reais de adultério virtual e de dependência cibernética, não seria improvável que o ser humano se apaixonaria pelo persocom, se ele existisse, conforme Chobits denuncia. Pelo que a estória une a crítica ao alerta: a ficção pode estar bem mais próxima da realidade do que estamos dispostos a aceitar. E o próprio desenho (quer seja no anime ou no mangá) não nos deixa mentir para nós mesmos: quem se apaixona por Chii – que além de ser uma personagem fictícia ainda representa uma máquina sem vida e sem alma – sem dúvida se apaixonaria por uma máquina real, como um notebook, um tablet, um smartphone, ou um persocon.

Chii é uma personagem emblemática. Ela exprime um ideal de pureza e inocência que todas as pessoas gostariam de encontrar umas nas outras, mas ninguém tem para oferecer e, com isto, as autoras da trama levantam um questionamento: seriam necessárias máquinas sob a forma humana para reaprendermos o que é ser inocente, puro, sincero e honesto, especialmente no amor? Nós estaríamos precisando de dispositivos mecânicos de tecnologia digital até mesmo para reaprender ou para preservarmos os significados destas virtudes?

Dentro da trama, as autoras poderiam situar o bem e o mal em pontos ou personagens distintos (como um vilão ou coisa do tipo) de modo que, a partir disso, pudesse criar as situações de antagonismo e crise que geram as emoções da trama, mas elas preferiram plantá-los na subjetividade de Chii. Ao mesmo tempo em que ela é mais pura e boa do que os personagens bons da estória, o “mal” que traz dentro de si (Freya) torna medíocres todos os pretensos vilões que aparecem de maneira incidental na trama. O primeiro sequestrador de Chii é literalmente ridicularizado pela primeira aparição de Freya. E diante de outra aparição o segundo sequestrador passa da situação de predador à situação de presa em segundos.

Entretanto, por serem irmãs, as duas não se opõem uma à outra. Freya não é inimiga e de Chii, não vive pelo propósito de destruí-la e nem desempenha o papel de quem tenta induzi-la a fazer o mal. Ao contrário disto ela chega a ser sua conselheira e defensora, respeitando as decisões da irmã. Ambas convivem em harmonia dentro do mesmo corpo ao ponto de se poder observar que as autoras situaram na personagem principal o exato significado do Yin e Yang.

Chii, como o Yang ou Bem é totalmente Bem, ou seja: totalmente não-resistente; totalmente cheia de amor incondicional, fidelidade e lealdade; extremamente pura e não enxerga malícia em nada do que vê; jamais fica irada e nem guarda rancor. Já Freya é uma concepção diferente do Yin ou Mal conforme o conhecemos: ela é detentora do conhecimento e da malícia; é depositária do desequilíbrio e da dor, embora conviva com ambos em situação de serenidade; é neutro quanto a fazer o mal ou incitar outros a fazê-lo, embora suscite a dúvida. Só existe uma zona de conflito brando entre as duas e isto ocorre apenas no anime: enquanto Chii quer viver e ser feliz, Freya considera a si mesma e a Chii como sendo um fracasso e deseja a extinção de ambas. Mesmo assim, não há luta entre elas e sim um breve debate verbal que não termina em derrota e sim em respeito e acato, marca registrada da harmonia entre Yin e Yang. Em síntese: Chii é uma bela que traz guardada dentro de si uma fera. Como resultado disto, é quase impossível não apaixonar-se pela persoconzinha Chii-Chan.

Hideki é o emblema de todo jovem promissor em suas lutas contra as dificuldades para chegar à universidade e ser alguém na vida. Muitas pessoas (a maioria certamente) já foram um Hideki nesta vida. Ele vive mais num “apertamento” do que num apartamento, seu dinheiro é pouco e suas necessidades são muitas, ele precisa trabalhar para se manter e estudar para ser alguém na vida, chega a passar fome, só vai ter uma Persocon porque encontrará a dele literalmente no lixo e, ainda assim, até que ela possa desempenhar o papel que os Persocons foram criados para realizar e amenizar as durezas da sua vida, ela lhe dá bem mais despesas e requer bem mais dele do que as vantagens que as outras Persocons oferecem aos seus usuários.

Com esta estrutura, Hideki representa os ideais mais caros para o povo japonês: simplicidade, benevolência, generosidade e honra. E, ao situar estas qualidades em um jovem adolescente cheio de fantasias, dívidas e dúvidas, as autoras da estória nos alertam uma realidade dura: na medida em que nós crescemos, corremos o risco de nos embrutecer sem darmos conta disto.

O vínculo de amor e dedicação que vai sendo criado entre Chii e Hideki tem o seu ápice em dois episódios distintos: o episódio em que Hideki carrega Chii nas costas buscando angustiadamente um lugar para que ela recarregue a bateria e não sofra uma queda de sistema, me remeteu imediatamente às palavras do Pequeno Príncipe no capítulo da raposa: “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante para ti”. No anime, Chii vai retribuir a Hideki no capítulo 16 (Chii administra) quando ele fica sem dinheiro e ela, mais autônoma e trabalhando, usa o seu pagamento para comprar ingredientes e preparar um jantar para ele. É claro que outras situações deixam bem claro o caráter incondicional do amor recíproco entre ambos, mas especialmente estes dois episódios que mencionei conseguiram trazer lágrimas aos meus olhos.

Hibya Chitose é a imagem da mulher japonesa na maturidade: não é apenas a senhoria e zeladora do seu condomínio; ela é um pouco mãe dos seus inquilinos. Serena, bem cuidada, dedicada a manter tudo em ordem e devotada à memória do falecido marido que, aliás, ela ainda ama. E tudo isto ainda é apenas a superfície de um lago profundo, pois ela é mais inteligente e poderosa do que aparenta. No mangá, ela é uma personagem mais coerente. A série em anime tornou Hibya-san uma figura intrigante, mas isto eu vou deixar para a crítica.

Shimbo é aquele amigo “Bombril” que quase todo mundo tem. Vizinho, colega de escola, amigo das mil e uma utilidades. Mas também é uma pessoa sensível e com uma vida própria.

Takako Shimizu é uma figura um tanto controversa. Seu costume de rir quando falam sério com ela é uma fachada para não dar continuidade ao assunto e, assim, dissimular o quanto ela sofre. Não poucos japoneses, homens ou mulheres se comportam desta maneira. Ela é uma mulher que vive um casamento em crise. Do mesmo modo que, nos dias atuais, muitos casamentos acabam por causa do computador e da internet, o caso da Shimizu Sensei é uma das projeções das autoras da estória para o futuro desta situação. O marido de Takako (que não aparece na trama) irá trocá-la por uma Persocon. Ela, juntamente com Ueda e Yumi, são as “vítimas” do envolvimento entre humanos e persocons.

Minoru-san é uma figuraça. Quase inexpressivo, inteligentíssimo, trabalha muito, parece não fazer caso da riqueza, mas sabe muito bem como administrá-la; e não que ele aproveite pouco, mas aproveita do jeito dele; um jeito muito austero e sereno. Não é apenas um gênio da informática. É um gênio; e como todos os gênios, tem uma maturidade precoce e uma serenidade perturbadora porque nos leva a pensar que ele não tem emoções.

Yumi-Chan é um docinho de pessoa. Uma quase menina num corpo de uma quase mulher. Dedicada aos estudos, auxiliadora do pai, trabalhadora, boa amiga e colega de trabalho. É discretamente fogosa e sonhadora; espera viver um grande amor e ser feliz, mas é preocupada com o fascínio das pessoas pelos persocons e prefere as coisas do modo tradicional, ou seja, humano com humano.

Ueda-San é um bom sujeito. Sua aparência jovem e sua serenidade escondem suas dores do passado. Ele trabalha com doces, mas experimenta uma amargura dentro de si e, ainda assim, não deixa que isto o impeça de cultivar uma doçura com a qual trata às pessoas.

A fusão da ficção com a realidade não é perfeita e na crítica eu pretendo explicar porque, mas também não é forçada e nem agressiva. Diria que é bem convincente como a ficção deve ser. Já a estrutura dos personagens e o papel de cada um na trama nos mostra os valores mais caros para os japoneses e a realidade deles.

É digna de muitos elogios a trilha sonora da série, que cumpre de maneira honrosa o propósito de promover a fusão som/imagem. É impossível não ouvir a música sem ser transportado à lembrança dos momentos mais singelos da estória. Tal trabalho aliado a um esforço cuidadoso e sensível dos profissionais de sonoplastia conferiu ainda maior seriedade a uma produção que, pela sua natureza de desenho animado, aos olhos da opinião pública não parece envolver tanto esforço, dedicação e seriedade. Apenas uma ressalva sobre a sonoplastia do anime deve ser observada na crítica.

Não passa despercebida a existência de mensagens subliminares neste trabalho, mas elas são culturais e positivas. As figuras de Yin e Yang já mencionadas são uma delas. A outra é a repetição contínua do nome “Chii”. Os que desconhecem este detalhe devem saber que Yin é a força negativa e Yang é a força positiva. Eles representam a dualidade presente em tudo e em todos os seres vivos. TAO é o nome dado ao equilíbrio entre estas duas forças e Chii (ou Khi) é a força interior que todo ser humano adquire quando consegue equilibrar o Yin e o Yang dentro de si. E teremos a menção ao Khi ou Chii no desenho Dragon Ball e também em na série Avatar. Portanto, o nome da personagem principal de Chobits é uma invocação (ou evocação) à força proveniente do equilíbrio das dualidades antagônicas presentes no ser humano.

Também o nome Chobits seria um anagrama a ser cuidadosamente estudado. O fato de terminar com a palavra “bits” relaciona o nome Chobits com o universo da informática. No mangá há uma menção de que este anagrama teria a sua origem nas letras do nome de Hibya Chitose. Há, porém, quem acredite que o nome Chobits tenha relação com o substantivo “witch” (feiticeira em inglês), mas os anagramas são sempre contestáveis.

O anime faz alusão ao complexo de Electra (A saber: contrário do complexo de Édipo. Anomalia psicoemocional caracterizada por um desvio de conduta no qual a filha se apaixona pelo pai) e o aborda com sutileza. Aparentemente, Ishiro Mihara criou duas filhas com uma anomalia que ele, como cientista da informática, deveria prever. Se Freya e Eruda tinham a programação de encontrar a felicidade numa pessoa a quem elas escolheriam para amar perpetuamente, Ishiro deveria ser capaz de prever que ele mesmo seria a pessoa mais propensa a ser eleita pelas filhas, por razões óbvias: ele era o criador delas e nelas havia muito dele mesmo; elas conviviam mais com ele e a mãe, portanto recebiam mais amor de ambos.

No estudo da informática existe uma matéria chamada LÓGICA. Por que isto é importante? Ora, se Freya se apaixonou por seu pai e não pela própria mãe, isto significa que a orientação sexual de Freya e de Eruda era para a heterossexualidade. Logo, se esta orientação sexual foi lembrada na construção do programa avançado das Chobits, seria lógico prever a possibilidade de Freya e Eruda desenvolverem o complexo de Electra. Porém é de maneira empírica que Ishiro e Hibya descobrem que ambas tendem a apaixonar-se por aquele que não apenas lhes ensinar tudo, mas também lhes expressar amor através da dedicação absoluta. Este destino vai ser cumprido por Hideki na trajetória de Chii.

Mas os autores do anime se eximem do erro de não tratarem do assunto com maior propriedade. Isto porque Hideki é um personagem cuidadosamente criado pelas autoras da trama para cumprir, na existência de Chii, o papel de um pai. É dele a responsabilidade de ensinar absolutamente tudo a ela, quase como se faz com uma criança desde o berço; é ele quem tem que zelar não apenas pela manutenção de Chii, mas também pela sua integridade em todos os sentidos. Este zelo recebe ênfase no episódio 3, quando Chii sai sozinha de casa pela primeira vez para comprar roupa íntima, orientada por Sumomo; e também nas duas ocorrências de sequestro vividas por Chii, e em outros pequenos momentos da trama. Então, quando Chii se reconhece apaixonada por Hideki, ela de fato está se apaixonando por alguém que, embora de maneira intrínseca e subjetiva, é também um “pai” para ela. E é somente no fato Hideki não ser realmente o criador de Chii que reside toda a diferença entre o fracasso de Freya e o sucesso de Eruda na tarefa de encontrar a sua pessoa especial.

Outras mensagens de cunho educativo relacionadas à moral e bons costumes são observadas em Chobits. O fato de Chii buscar a felicidade em uma só pessoa para amar e ser amada é um recado aos jovens para que busquem o amor verdadeiro e a felicidade em uma só pessoa, ao invés de imitar o comportamento vulgar de “ficar” com várias pessoas. O primeiro sequestro de Chii ensina uma regra básica: não conversar e não aceitar propostas de estranhos na rua. E também mostra Freya advertindo Chii para que não toque em si mesma entre as pernas e nem permita ser tocada em tal região, pois apenas “a pessoa só para ela” poderá tocá-la. Já no segundo sequestro é a própria Freya quem assume o lugar e Chii, domina e repreende o seu sequestrador dizendo: “você não é a minha pessoa especial; portanto, não te permito entrar!”.

Nestas situações há uma mensagem clara e direta aos jovens: que não se deixem tocar por qualquer um e aprendam a repelir o abuso sexual, o que constitui zelo pela intimidade e pela integridade sexual. Na sequência da cena em que Freya assume o consciência de Chii pela segunda vez, Hideki aparece e ela declara a ele: “Chii só quer a uma pessoa; só a uma que é para mim; não permitirei que nenhum além dele me toque; só ele tem acesso permitido.” Portanto, estas são cenas educativas na série. Chobits faz apologia à busca pela felicidade no amor verdadeiro, à fidelidade e lealdade no amor e no sexo, à castidade e à preservação da virgindade. Tais valores são os que a sociedade Japonesa conservadora mais preza, em contraste com a cultura do ocidente. Em nenhum outro desenho animado observei tal apologia sendo defendida de maneira tão intensa e contundente.


Crítica:


A estória de Chobits em anime ou mangá pode ser até hoje um sucesso, mas ainda que isto decepcione os fãs da estória, ela não é uma obra de pura originalidade. Chobits reescreve a estória de Pinóquio, porém com outros personagens e novo enredo. É de se reparar que Ishiro Mihara (o criador das Chobits e falecido marido de Hibya Chitose) não seja outro senão “o Jepeto do século XXI”, por assim dizer, com a diferença de ser um Jepeto de etnia nipônica. Vejamos as ambiguidades:

. O Jepeto original é velho e vive sozinho, o que faz supor que ele é viúvo e, dadas estas circunstâncias, ele não pode ter filhos. Já Ishiro Mihara, como o Jepeto do século XXI, possui um perfil diferente do original: é casado com uma mulher estéril (Hibya Chitose).

. O velho Jepeto constrói o seu Pinóquio com madeira; Ishiro Mihara desenvolve um sofisticado projeto de informática do qual nascem, Freya e depois Eruda (o Yin e o Yang).

. Jepeto é um velho de barbas brancas (concepção européia de Deus) tentando criar um arremedo de Adão; Ishiro Mihara é um homem recriando uma Eva muitas vezes aperfeiçoada. Ele erra na criação de Freya, porque ela peca ao se apaixonar por seu próprio pai, mas acerta na criação de Eruda que, por perguntar frequentemente se cometeu algum erro, demonstra a preocupação por não pecar ausente em Eva.

. Pinóquio deseja se tornar um menino de verdade; Freya e Eruda são persocons, ou seja, melhores do que meninas de verdade, salvo o fato de não terem alma; mas elas possuem sentimentos, desejam amar e serem amadas, jamais viverão as crises da adolescência, nunca terão tensões pré-menstruais e nunca vão abandonar os pais. Logo, perde-se em algumas coisas, mas ganha-se em outras.

. Sumomo, por mais irritante que seja, juntamente com Freya desempenha o papel do grilo falante, exercendo a função da consciência de Chii. Sumomo o faz em plano objetivo e Freya na subjetividade.

. Em lugar da fada madrinha temos Hibya Chitose. Ela não tem poderes mágicos, mas tem muita inteligência e conhecimento tecnológico. Consegue urdir como uma fada o destino da “filha” que ela mesma literalmente joga no lixo, para que a menina vá do inferno do abandono ao céu da adoção por Hideki.

É preciso ainda destacar que esta proposta de reescrever Pinóquio também não é nova: o diretor Steven Spielberg lançou em 2001 o filme A.I. – Artificial Intelligence – no qual faz menção direta da estória de Pinóquio e também aborda o relacionamento entre seres humanos e máquinas replicantes da forma humana.

Também o cativante envolvimento afetivo de Hideki e Chii não é uma construção original. Basta assistir aos filmes de Charles Chaplin para ver isto. Percebi este detalhe assistindo o clássico: Luzes da Ribalta, onde Chaplin repete uma receita muito comum dele mesmo: um homem que encontra uma garota em situação de penúria e ajuda-a a resgatar sua vida e dignidade, depois é ajudado por ela que, enfim, se apaixona por ele. Uma receita infalível para cativar o público sensível e que deseja ver que o amor e a bondade não desapareceram. E esta receita pode também ser vista em Chobits pelos leitores pouco conhecedores do mundo das artes, mas está longe de ser uma receita original.

Pode ser que alguém não tenha gostado de Chobits, quer seja em anime ou no mangá. Isto é compreensível. Mas é difícil – senão impossível – negar que Chobits tenha sido um sucesso. A prova está na grande quantidade de fãs que se expressam sobre a série em páginas incontáveis de blogs e redes sociais. Enquanto existiu, o Orkut chegou a ter mais páginas e comunidades dedicadas à série do que o próprio Facebook. Então é incontestável: Chobits emocionou a maioria esmagadora das pessoas que acompanharam a estória, quer pelo anime ou pelo mangá.

O sucesso no Brasil foi grande se considerarmos que a exibição foi relativamente restrita. Ela se deu através do mangá cujos fãs formam um grupo restrito e da série em anime que não atrai o interesse geral do público brasileiro no gênero seinen; não foi exibida na TV aberta, só teve versão legendada e até hoje nem lhe deram uma dublagem em português.

Apesar de tantos predicados, o anime Chobits não eclodiu na mídia. Em meio a tantos elogios, é de se estranhar que Chobits não tenha causado um “boom” na venda do mangá, nem se alastrado pelos canais abertos de televisão, nem atraído a atenção dos produtores cinematográficos para que fizessem da série uma superprodução do cinema. Porém isto não chega a ser um enigma indecifrável. Se Chobits não ganhou as telas de TV do mundo todo e não rendeu muito mais dinheiro do que poderia às suas criadoras, isto possivelmente se deve ao tradicionalismo dos seus produtores, o qual terminou condenando Chobits à mediocridade. Somam-se a isto alguns pequenos erros primários que poderiam ter sido depurados antes da apresentação ao público; e aqui eu quero enfatizar que estou me referindo à MADHOUSE que adaptou a estória do mangá para a série em anime, muito mais do que ao grupo CLAMP que concordou e deve ter participado da adaptação da estória do mangá para a versão em anime.

Para ser mais específico, ainda que demorasse mais um ou dois anos, a série Chobits em desenho animado merecia ter sido desenvolvido em animação computadorizada. Coisa, aliás, não tão cara e nem fora alcance dos japoneses. Basta dizer que o bonequinho que aparece andando de costas no final de cada capítulo é feito de animação computadorizada e dá uma noção do que teria sido Chobits se tivesse sido produzido naquele padrão de animação. Ao contrário disto e, ainda que esta resenha venha a chocar os fãs da série, perto do que é sabido que o Grupo CLAMP pode fazer, a qualidade de desenho e de animação vistos em Chobits deixa a desejar em alguns momentos.

O anime apresentado ao público preserva o tradicional dos animes japoneses, mas é nisto que se encontra a mediocridade. Eu suspeito de duas hipóteses: na primeira alguém teve medo de ousar; e na segunda alguém disse: “vamos fazer como sempre fizemos e como sempre deu certo.” Com isto, em alguns momentos o anime exibe desenhos mal feitos nos quais se nota que, em alguns episódios, Chii não foi esboçada pelo mesmo desenhista. Estes erros depreciam tanto o trabalho quanto os personagens e a competência profissional de quem aceitou o desafio de dar-lhes movimentos e torná-los “reais”.

Neste ponto alguém exigiria exemplos, pois eu os tenho. Quando Hideki está levando Chii pela primeira vez na mansão de Minoru-san, observe cuidadosamente o perfil de Chii a poucos passos de chegar ao portão. Note como não parece o perfil de uma menina e sim de um macaco. Também depois que Chii toma banho pela primeira vez e ganha um quimono de Hibya-san, logo depois Hideki mostra a ela uma foto que ainda vamos descobrir que é de Freya. Repare nos traços do rosto de Chii quando ela e Hideki estão sentados bem próximos. Depois volte na cena em que Chii lê pela primeira vez o livro que Hideki comprou para ela e repare no desenho do seu rosto. É visível que os dois desenhos não foram feitos pela mesma pessoa.

Cabe sugerir ao leitor uma breve experiência: assistir à introdução do anime Angelic Layer e, feito isto, assistir também aos dois primeiros e os dois últimos capítulos de Kobato. Longe de pretender escrever uma resenha dentro de outra, esta prática ajudou a elucidar muitas coisas que desejo compartilhar com o leitor. Uma delas é a unidade contextual da equipe CLAMP: em todas as suas estórias as garotas são as heroínas e os homens figuram como coadjuvantes apáticos que só reconhecem seu amor por estas garotas nos dois últimos capítulos das estórias. Esta unidade contextual, além de ser um traço (senão O traço) marcante da CLAMP, é também a revelação de como a CLAMP enxerga e denuncia a sociedade Japonesa.

Note que as personagens principais de Angelic Layer, Cardcaptor Sakura, Kobato e Tsubasa Chronicles são garotas. Note também que elas possuem poderes e habilidades especiais, enquanto os seus amados são meros humanos que mal fazem uso do menor percentual de seus cérebros. Note ainda que há uma ligeira semelhança de perfil entre Fujimoto-san (em Kobato) e Hideki (em Chobits). Ambos precisam perder suas amadas para se curvarem ao fato de que as amam.

Em síntese, a equipe CLAMP (não por acaso composta por quatro mulheres) deixa bem clara a sua visão social do mundo: a mulher, para a CLAMP, é poderosa e o homem é um bronco insensível tão dedicado ao futuro, ao estudo e ao trabalho que não reconhece o amor e a felicidade nem mesmo quando estes são postos bem diante dos seus olhos. Assim, do mesmo modo que os filmes para as crianças no Japão são mensagens subliminares ensinando que o menor pode vencer o maior se acreditar nisto (uma tipologia da situação do Japão em relação à China e aos Estados Unidos), também a CLAMP ensina às meninas que elas são poderosas e os homens são uns bocós.

Mas esta resenha ainda está tratando do desenho e da animação em Chobits. Quando esta resenha começou a ser escrita, o autor ainda não havia se dado a este trabalho de observar o antes e o depois de Chobits. Mas após fazê-lo, a perplexidade e a indignação tornaram-se maior com relação à crítica deste quesito. Por que a arte do anime Chobits não reuniu a qualidade de animação da abertura de Angelic Layer com a qualidade de desenho presente em Kobato?

Em Kobato podemos rever o condomínio Gabu Jougazaki, Hibya-san, suas duas filhas gêmeas: Chise e Chiho (que são Eruda e Freya, porém humanas). E nisto a CLAMP coloca a personagem de Hibya Chitose em mais uma de muitas “saias justas” porque nem ela e nem o seu falecido marido são loiros, mas ela é a feliz mãe viúva de duas japonesas loiras. Isto é explicável enquanto as duas são persocons humanoides, mas na condição humana há um constrangimento.

Também em Kobato veremos Yumi-chan e Ueda-Tenchou. A diferença é um desenho de muito melhor qualidade e de maior delicadeza nos traços que destacam, entre outras coisas, a cor da íris dos olhos dos personagens. Para quem conhece (ou vier a conhecer) estes trabalhos, fica evidente que o Grupo CLAMP simplesmente optou por não fazer o melhor ao seu alcance em Chobits. É inegável que o anime Chobits poderia ter tido uma melhor qualidade de desenho, ainda que não fosse por animação computadorizada; e o que não permitiu isto é algo que só saberemos se perguntarmos diretamente à equipe CLAMP, se é que vale a pena fazer isto agora, quando a sua produção já passou de uma década de existência.

Quanto ao texto de Chobits, o argumento e o diálogo mereciam ter sido mais fiéis ao mangá e também repensados e reeditados com o propósito de dar à série uma continuação que fosse anunciada como bônus surpresa para os fãs da série. Isto feito, o merchandising também poderia ter sido mais forte e abrangente porque, como eu já disse, parece que alguém ficou acanhado na hora de ousar gastar com isto. Mas parece que dar continuidade ao que faz sucesso não faz parte dos planos da equipe CLAMP. Talvez elas acreditem que deixar os fãs querendo mais pode ser um ingrediente de sucesso, mas o autor desta resenha se reserva o direito de dar a este ingrediente o nome de mediocridade.

A adaptação para o anime de uma estória de sucesso em mangá tem, obrigatoriamente, que obedecer a certos critérios. O primeiro deles é a supressão de cenas e diálogos do mangá que não ficariam bem no anime. Como eu já disse, o mangá atinge o interesse de um público mais restrito. Já um anime, uma vez exibido na TV, pode ser visto por qualquer um que ligue e sintonize a TV no canal onde ele está sendo exibido. Então é preciso pensar em quem poderá estar do outro lado da mídia. O outro critério vem do próprio autor (ou autores) da estória: pequenos detalhes que ele mudaria se tivesse a oportunidade de escrever o trabalho outra vez, porém sem alterar o eixo central da estória, nem os destinos dos personagens na trama. Porém existe ainda outro critério: aquele que deturpa a estória ou partes dela. E em Chobits encontramos estes três critérios.

Analisando o mangá, percebe-se que no anime houve uma preocupação em respeitar os espectadores que não fossem fãs do gênero, mas que, inadvertidamente, pudessem ver o trabalho. Da mesma forma é notória uma busca por um final que preservasse a fidelidade com a estória original, mas que fosse diferente em alguns aspectos. Entretanto, houve também uma deturpação nada discreta e tratarei dela mais adiante.

Os pequenos erros primários que mencionei são pontos bobos aqui e ali que me deixaram no ar quando eu vi a série terminar. Ninguém gosta quando uma novela ou livro chegam ao final; e quando o final chega, raramente agrada a 100% dos espectadores fiéis. Mas quando uma série ou novela terminam deixando muitas dúvidas mal respondidas ou sem esclarecimento, isto revela que o PDCA tão preconizado pelo programa 5S (também de origem japonesa), não funcionou. E, no caso de Chobits há um pecado: é notória a presunção de que o espectador que se encantou com o anime, já leu ou vai se interessar por ler o mangá. Se esta presunção está ligada ao desejo de que o espectador ainda o faça, então eu considero isto como sendo uma técnica grosseira e nada simpática de marketing. Como nem todos são afeitos à leitura específica de mangá, as lacunas do anime correm o risco de permanecerem abertas e isto expõe o trabalho a outro risco: o de parecer negligentemente incompleto.

Entre os erros aos quais me refiro, eu destaco a descontinuidade ou falta de conclusão de alguns detalhes como, por exemplo, o fato da estória começar sendo narrada no primeiro capítulo por Hideki e terminar sendo narrada por Chii no último. E ressalto que eu me dei ao trabalho de observar isto tanto no anime quanto no mangá. Isto quase não é um erro porque Hideki é coadjuvante e Chii é a personagem central numa estória dentro da qual ela é a quinta a ser introduzida (as quatro primeiras são Hideki, Hibya, Shimbo e Sumomo) e ainda porque ninguém se dá conta disto depois dos mais de vinte capítulos entre o início e o final. O filme: “The Lord Of The Rings” (O Senhor dos Anéis) também começa sendo narrado por Lady Galadriel e termina sendo narrado por Frodo e nem por isto deixou de ser um sucesso. Mas o certo em Chobits seria Hideki porque é com ele que a estória começa e também por uma questão de direito: é ele quem verte sangue (ainda que pelo nariz) suor e lágrimas do início ao fim da estória, para que a mesma seja contada.

No capítulo 1 do anime Hibya-san percebe que Chii está no apartamento de Hideki. É aceitável que os adaptadores da estória não quisessem ainda levantar suspeitas sobre a ligação entre as duas (pelo menos para quem não leu o mangá), mas a ausência de uma mínima reação emocional por parte de Hibya-san naquele momento me fez, ao chegar mais adiante na estória, atribuir à Hibya-san uma frieza imoral; afinal, Persocon ou não, Chii era Eruda, a filha de Hibya-san! Ainda que mínima e discreta, alguma reação deveria ter aflorado nela.

No capítulo 3, Chii dirige a palavra pela primeira vez à Hibya-san desde que Hideki a encontrou e, mais uma vez, Hibya-san não tem a menor reação. Mas este erro não pode ser atribuído a ela; antes é da MADHOUSE. Uma imagem de uma troca frontal de olhares entre as duas por dois segundos antes que Chii apontasse pra ela e dissesse: “Hideki!” teria resolvido tudo. A equipe CLAMP se isentou deste erro no mangá, que mostra alguma reação por parte de Hibya-san. O anime só vai mostrar Hibya-san tendo uma atenção maior com Chii quando a presenteia com um vestidinho cor-de-rosa. Isto é tudo o que ela faz por Chii e, indiretamente, por Hideki. Mas o caráter de Hibya-san na concepção da MADHOUSE é matéria para um comentário à parte e vou me abster de fazê-lo aqui.

Aliás, que roupinhas eram aquelas? As roupinhas de Chii são dignas de comentários à parte. Sabemos que Hibya-san na verdade não estava dando roupas velhas dela e sim as roupas que já haviam pertencido a Chii quando ela se chamava Eruda. Falando sério: que mãe veste a própria filha (mesmo que essa filha seja uma persocon) com uma roupa que transforma uma menina de 15/16 anos numa periguete? Com exceção do primeiro vestido que ela ganha de Hibya-san (aquele marrom), os outros exploram bem a sensualidade da menina. Certamente, as roupinhas prostituidoras usadas por Chii que – justiça seja feita – não via malícia em nada, não respondem pelo caráter austero das verdadeiras garotas japonesas. Aquelas roupinhas fazem parte dos apelos sensuais muito peculiares (quase uma assinatura) da equipe CLAMP e, junto com outros detalhes, tornou Chobits um produto que os pedófilos de plantão devem agradecer até hoje.

No bojo deste mesmo contexto, é pertinente observar que a incidência de situações de nudez, seminudez e vestimenta inadequada – embora sejam características nos animes do gênero seinen – são conflitantes e contraditórias em uma estória que se esforça por enaltecer os valores morais da sociedade japonesa, faz apologia à fidelidade e lealdade no amor bem como à valorização e preservação da virgindade. Talvez as muitas críticas resultantes desta particularidade após a estreia do anime tenham sido a razão das roupas tão austeras da personagem Kobato – a série que veio a seguir.

E ainda sem perder de vista as descontinuidades, mas dentro do assunto guarda-roupa, vale lembrar que a segunda roupa dada a Chii por Hibya-san (uma roupa de estudante) não é vestida durante a série inteira, a menos que existam cenas excluídas. Aquela roupa só vai ser vista no especial cômico ridículo e de péssimo gosto que foi produzido depois do capítulo 27.

Os dois raptos de Chii contêm descontinuidade e incoerência. No capítulo 7 acontece o primeiro rapto e nele devemos atentar para um detalhe quase imperceptível. Quando Chii é abordada pelo homem de terno verde, ela está usando o seu vestido marrom – o primeiro que ganhou de Hibya-san. Aquele homem a conduz a um lugar onde ela troca de roupa porque acredita que conseguiu um emprego. Após a tentativa de abuso, Freya toma o controle da situação e tira Chii daquele lugar, ainda seminua. Portanto, ela deixou para trás o seu vestido marrom. Mas nos últimos capítulos da série, na cena final do capítulo 26 e no tempo presente do capítulo 27, Chii aparece usando o mesmo vestido que usava na primeira vez que foi raptada. Quando e como aquele vestido foi recuperado? Isto não aparece ao longo da série.

O segundo rapto de Chii contém um erro que o envolvimento emocional do espectador deixa passar despercebido. Após o rapto, Chii aparece dormindo num dos quartos da casa de Kojima Yoshiyuki sem identificar o lugar onde estava, o que sugere que ela estava “inconsciente” quando chegou lá. Como foi que esta inconsciência ocorreu? Chii desmaiou? Como Kojima conseguiu isto? Ele usou clorofórmio? Não; os persocons não respiram e, se eles respirassem este artifício que funciona tão bem em humanos não causaria nada em um persocon. Então a pergunta permanece: como é possível fazer um persocom adormecer, apenas tapando-lhe a boca? E, mais especificamente: como foi Kojima conseguiu fazer isto com Chii, especialmente sem despertar Freya – a defesa de Chii?

Outro dentre os detalhes do anime que ficou sem ser explicado desde o primeiro rapto de Chii, é a origem e a identidade da voz que alguns persocons afirmam ter ouvido quando, por alguma razão, Chii reluzia. Que voz era aquela? A quem ela pertencia? O que ela dizia? Por que Yuzuki e Kotoko afirmaram que aquela voz as conhecia e era conhecida delas? Isto vai permanecer no mais profundo mistério, a menos que o mangá tenha a resposta.

A cretinice de Chii é mais um detalhe que atravessa a estória inteira sem ser corrigida. Chii nunca deixa de falar de si mesma na terceira pessoa do singular. Ela não diz: “Hideki, eu te amo”. Ela diz “Chii ama Hideki”. É sabido que os japoneses consideram egocêntrica a repetição exaustiva do pronome “eu” numa conversação ou texto, do mesmo modo que os japoneses preferem tratar as outras pessoas pelo nome ao invés de usar os pronomes “você” ou “ele/ela”. Então, quando Chii usa a terceira pessoa do singular em suas conversações para referir-se ao seu interlocutor, ela não pode ser considerada errada. Mas ir do início ao fim da série referindo-se a si mesmo na terceira pessoa é um erro notório do anime, e esta situação persiste mesmo depois de Chii ter passado um final de semana numa praia, tendo por perto uma professora: a Shimizu-sensei.

No mangá, quando vemos Chii falando de si mesma na terceira pessoa, entendemos que não é Chii e sim Freya referindo-se à Chii em suas poucas manifestações. Eu pensei que a MADHOUSE se lembraria de resolver isto até o final do anime, senão no fim dele, mas não aconteceu. Isto constitui outro erro que, todavia, não deve ser atribuído à equipe CLAMP.  Talvez a MADHOUSE tenha apostado neste comportamento como um dos traços da inocência de Chii, mas eu vejo incoerência nisto, pois se o programa de aprendizado do qual ela era dotada mostrou ser tão eficiente ao ponto dela já estar conversando em Japonês no capítulo 3, e já ser capaz de ler em Japonês no capítulo 4, então deveria haver um momento após a metade da estória em que esta falha ficasse para trás.

O capítulo 12 do anime foi um enigma para a minha compreensão por muito tempo depois que assisti à série inteira. Cheguei a considerá-lo como um enigma de continuidade na série. Nele é contada uma estória de terror que deixa Hideki apavorado. Somente depois de algum tempo estudando o idioma e a cultura japonesa, eu consegui entender que os japoneses gostam de histórias de terror, particularmente na estação do verão. Assim, uma produção japonesa que não tem uma pontinha de terror, é considerada incompleta.

Este capítulo revela um erro que poucos espectadores dão conta de tão sutil que é: nele, Chii revela ouvir um ruído que ninguém mais ouve. Porém a origem deste ruído já é revelada no capítulo anterior, quando Chii tem um encontro com Freya enquanto Hideki vai ao cinema com Yumi-chan. Então, por lógica, o capítulo 12 deveria ser o 11 e vice-versa. Com exceção deste detalhe ínfimo, o tempo de um capítulo inteiro foi gasto, a meu ver, por nada. Se o planejamento era de produzir 27 capítulos no total, então teria sido mais proveitoso usar o tempo daquele capítulo em coisas mais essenciais como um desfecho mais digno para a estória, com requintes de suspense que acrescentariam mais emoção e também maiores e melhores esclarecimentos que estão presente no mangá, mas faltaram no anime.

No capítulo 19 Hideki encontra e resgata Chii do seu segundo sequestro. Desta vez, Shinbo está com ele e interroga o sequestrador que mente dizendo ter sido seguido por Chii. Neste momento ele é desmentido pela sua persocon móvel Kotoko; então Shinbo conversa com Kotoko pela primeira vez. Mas no capítulo 26 vemos Shinbo indo ao apartamento de Hideki para pegar Sumomo e Kotoko para dar privacidade a uma conversa séria entre Hideki e Chii. Quando isto acontece, Shinbo cumprimenta Kotoko e esta ainda faz uma avaliação dele, como se ambos já não se conhecessem antes. Isto é mais uma discordância de continuidade.

Um grande contraste que faz muita diferença entre o anime e o mangá é o fato que, no mangá, Hibya e seu marido sabem da decisão de Eruda salvar Freya dentro de si. Já no anime, Hybia não sabe que Eruda tomou esta decisão e esta revelação será uma surpresa até para ela no último capítulo. Mas esta diferença gera mais um erro: se no anime Hybia ignorava que Freya estava escondida na memória de Chii, então porque ela escreveu o livro A Cidade sem Ninguém com duas bonequinhas idênticas, diferenciadas apenas pela roupa? A resposta revela o erro: no mangá Hybia sabia que Freya estava escondida em Chii e, por isto mesmo, compôs o livro daquela maneira.

Ainda um detalhe que, creio eu, fez falta na série, embora não possa ser considerado exatamente um erro, trata-se da ausência de uma cena que mostrasse um persocom sendo submetido a uma avaliação de raios x. Poderia ter ocorrido com Chii, com qualquer outro persocom da série, ou mesmo as duas coisas na mesma situação para um efeito de comparação, já que o objetivo comum de Hideki e Minoru-san era o de descobrir mais sobre Chii. Acho que isto teria somado mais informação e acrescentado outras e novas emoções, além de outras e novas linhas de raciocínio à série. Fica mais uma sugestão para a segunda temporada, ou para uma possível megaprodução do cinema.

Mas é no final da série que temos as grandes falhas e, junto delas, a maior falha de Chobits. Vamos à primeira: a “hora da verdade” no penúltimo capítulo traz revelações bombásticas, tornando a série mais grave do que dramática. O complexo de Elektra vivido por Freya e revelado a Hideki por sua mãe Hibya Chitose causou em mim um frisson de escrever às criadoras da série somente para perguntar se elas tinham lido alguma obra da dramaturgia brasileira, porque esta situação da filha se apaixonar pelo pai e “morrer” de paixão são marcas patentes do mais puro folhetim de Nelson Rodrigues.

Não que isto seja um erro, mas eu achei forte demais mesmo para um anime seinen. Talvez o leitor não saiba, mas uma breve pesquisa no youtube pode comprovar uma quantidade tão surpreendente quanto absurda de animes japoneses abordando (senão estimulando) o assédio sexual entre irmãos com mais frequência do que estamos acostumados no ocidente. A CLAMP e a MADHOUSE, assim como os demais produtores destes trabalhos deveriam levar em consideração que a arte de um país espelha a cultura daquele país. Analisando por este crivo poderemos absorver a impressão (equivocada ou não) de que o incesto e o complexo de Electra são recorrentes na sociedade japonesa ou são algum tipo de fetiche por lá.

A segunda falha: esta mesma “hora da verdade” no anime ficou devendo explicações, como a forma como Chii foi parar no monte de lixo. E da mesma cena vem outra descontinuidade: o anime não esclarece o que foi feito do disco de memória que cai no chão quando Hideki recolhe Chii do lixo, nem qual era o conteúdo daquele disco e nem a diferença que teria feito o fato dele ter sido encontrado. Este é outro erro da MADHOUSE, porque no mangá a equipe CLAMP dá ampla atenção a este detalhe. Até antes de ler o mangá eu pensei que, talvez, se o disco fosse recuperado, Chii não passaria a série toda com aquele perfil de uma adolescente portadora de autismo.

Terceira falha: não há explicação a respeito do fenômeno que acontece com Chii quando, nas duas vezes em que foi sequestrada, tentam tocar em suas partes íntimas. Que mecanismo de defesa é aquele? Como e porque ele acontece? Será por causa disto que o governo tem interesse nas Chobits? Ou nenhum momento foi dedicado a estes esclarecimentos no anime, ou ele chegou aqui no ocidente com cortes grosseiros.

Quarta falha: não são reveladas as pessoas de carne e osso por detrás dos dois Persocons (Jima e Dita) que tentam desligar Chii. Nem fica esclarecido se Jimma é “o deus dos persocons” mencionado por Kojima YoshiYuki. Vou ser extremamente ingênuo e otimista em acreditar que talvez a CLAMP e a MADHOUSE tenham concordado em deixar isto como gancho para uma possível continuação da série.

A quinta falha é a deturpação da estória original na adaptação da MADHOUSE para o anime, e a razão pela qual a fusão da ficção com a realidade não chega a ser perfeita em Chobits. Na adaptação para o anime, a participação da senhora Hibya Chitose assume um caráter covarde, duvidoso e maquiavélico, o que faz dela, numa definição bem honesta, uma pilantra. Certamente o leitor me perguntaria: “por quê?” então, vou explicar: numa definição fria da situação, Hibya-san faz Hideki de “testa de ferro”. Ela transfere um problema que é dela para um completo despreparado resolver, sem perguntar se ele aceita tal responsabilidade.

Ela e Hideki têm o seu primeiro contato já no primeiro capítulo, quando Hideki se encontra falando sozinho na porta do seu condomínio, dizendo que quer ter uma persocom. Note que Hideki chega ao condomínio Gabu Jougazaki durante o dia, passando pelo mesmo caminho por onde ele passa à noite, depois de comprar o seu jantar. Então podemos entender que Chii ainda não estava jogada ali durante o dia. O que nos leva à dedução de que ela foi posta naquela pilha de lixo à noite, para ser encontrada por Hideki. E quem senão Hibya Chitose colocaria Chii de maneira providencial no lugar certo e na hora certa? Disto se deduz que ela (só pode ter sido ela), para fugir ao clichê de colocar o bebê órfão na porta alheia, abandona a própria filha numa área para despejo de lixo para que Hideki a encontrasse (abandono de incapaz – me lembrou o vilão Félix na novela brasileira “amor à vida”), correndo o risco de seu plano falhar e Chii ser levada por outra pessoa. Porém o esperado acontece: Hideki encontra Chii e decide ficar com ela (bingo!).

Assistindo ao capítulo 1 percebemos que tão logo Hideki leva Chii para casa e a liga, quem aparece na porta do seu quarto depois de Shinbo? Ela mesma; Hibya-san. Sob o pretexto de oferecer a Hideki uma tigela de Kinpira, a kanrinin-san vai checar se “o peixe mordeu a isca”. Com isto, o “abacaxi” que deveria ser “descascado” pela cientista Hibya-san vai parar nas mãos de um total analfabeto no que concerne à informática. Considerando que Hibya é a “mãe” de Chii, podemos dizer que a “sogra” jogou a “filha” nas mãos do primeiro otário que estava passando.

A partir daí, Hideki é envolvido numa trama de desventuras em série e come o pão que o diabo amassou para ensinar a ela uma das coisas mais complicadas da vida, que é o desenvolvimento do senso comum e que não se aprende da noite para o dia. Coisas elementares como reconhecer as coisas pelo nome, sair de casa e saber voltar, não falar com estranhos na rua, não abraçar qualquer um com a mesma intimidade, não tirar a roupa na frente de qualquer pessoa, cuidar da própria higiene, cozinhar sem atear fogo no apartamento e uma série de outras coisas que só se aprende com o tempo. Hideki também assume a responsabilidade por todas as necessidades materiais e logísticas de Chii, o que inclui desde as calcinhas que ela precisa até a conta da eletricidade que ela consome (não pense o leitor que eu esqueci).

Os problemas gerados pela chegada de Chii na vida de Hideki têm um impacto imediato e negativo sobre o objetivo da permanência dele em Tókio, ou seja, Hideki – que já tem dificuldades para se concentrar nos estudo e aprender as matérias para passar no vestibular, vai ter mais dificuldades ainda tendo que cuidar de Chii que, dentro do que seria certo, deveria estar sendo cuidada por Hibya. A primeira evidência disto está no capítulo 5, quando Hideki passa um dia inteiro sem conseguir estudar, sendo que tirou o dia para isto e, quando ele precisa comprar um dicionário de inglês, deixa de fazê-lo para comprar um livro para Chii.

Hideki é tão humilde que acaba se fazendo servo de uma máquina que deveria servi-lo; e ele ainda a considera como igual ao ponto de ter a decência e a hombridade de recusar o dinheiro que Chii ganha com o seu trabalho. Eu entendo que o anime tem uma proposta de preconizar o comportamento moralmente correto e, não aceitando o dinheiro de Chii, Hideki estaria ensinando a ela (e a todos os jovens que vissem a série) a ter um bom caráter, se é que para Chii – enquanto máquina – existe isto. Entretanto eu penso também que do momento em que os persocons existem para servir aos humanos e admitindo que muitas das dificuldades de Hideki estivessem relacionadas à presença de Chii em sua vida, eu também acharia justo se ele aceitasse. Para ser mais honesto é corente pensar que seria decente se, diante das circunstâncias nas quais Hideki se meteu, Hibya-san nem fizesse tanta questão de receber o aluguel do apartamento que Hideki ocupava. Mas em meio a tudo isto, as únicas coisas que Hibya-san faz são: interferir anonimamente quando as coisas ficam pretas e repassar umas roupinhas usadas que já eram da própria Chii, embora ela não lembrasse.

A sexta falha também vem das incoerências sutis da Kanrinin-san: depois de já ter sido desativada em seu próprio corpo, Freya, que estava refugiada na subjetividade de Chii, reaparece na cena do terraço assumindo o lugar da própria irmã. Isto também acontece no mangá, mas na adaptação para o anime a MADHOUSE quis ser cuidadosa, pois quem leu o mangá sabe que não ficaria bem reproduzir a mesma cena no anime. Entretanto, querendo ser cuidadosa, a MADHOUSE cometeu um descuido: Freya pede a Hibya que apague do sistema tanto ela quanto Chii. Ora, se ser apagada era tudo o que ela queria, então por que concordou em se refugiar no corpo da própria irmã quando poderia já ter sido formatada? E por que ser apagada duas vezes, levando consigo desta vez a irmã que, estando ausente naquele momento, não podia manifestar-se a favor ou contra este pedido de Freya?

Que a MADHOUSE quisesse modificar a cena, isto é perfeitamente compreensível. Que Chii tenha tido um instante de dúvida e desaparecido, é aceitável somente mediante a argumentação que ela apresenta no diálogo introspectivo que ela tem com a irmã depois do seu sistema ter sido formatado, embora não faça sentido considerando o amor que ela passou a estória inteira cultivando por Hideki. Mas o pedido e as argumentações de Freya não foram bem planejados pela MADHOUSE e isto encheu a cena de incoerência.

Porém, como diria Murphy em sua primeira lei: nada é tão ruim que não possa piorar. Hibya concorda com a incoerência de Freya e dá a ordem para formatar o sistema e terminar com a existência das suas duas filhas a despeito dos gritos de Hideki que pede que ela não o faça. É possível entender e aceitar que Freya tenha um lado insano. Mas que Hibya Chitose concorde com tal insanidade, é inaceitável. Na insensatez de Hibya eu enxerguei o equivalente à prática de uma “eutanásia cibernética”. Onde a MADHOUSE colocou, naquele momento, o sentimento de mãe de Hibya Chitose eu não faço ideia, pois como “mãe” ela deveria não atender ao pedido de Freya em favor de Chii, afinal, Freya já tinha tido a oportunidade de ser extinta e não poderia ser apagada agora, ameaçando a continuidade da existência de Chii. Seria a coisa mais sensata a fazer, mas a MADHOUSE também quis imputar mais esta falha de caráter em Hibya-san: a insensatez. O remate da cena vem quando ela pensa que tudo fica bem dizendo: “Motoswa-san, me desculpe. Afinal eu fiz você sofrer”. Daí ela vira as costas e vai saindo como se a dor do sofrimento de Hideki e os seus eventuais prejuízos não fossem problemas causados por ela! Fácil pra ela, vocês não acham? Eu não sei quanto a vocês, mas no lugar do Hideki, eu voava na cara dela sem pena.

É importante enfatizar que toda a deturpação do caráter de Hibya-san é de total responsabilidade da MADHOUSE, pois nada disso ocorre no mangá.

A sétima falha: no anime, depois de ter seu sistema formatado, Chii consegue a façanha de restaurar o seu próprio sistema de maneira totalmente autônoma. Ou ela tem um disco rígido extra que é imune à formatação, ou Ishiro-san foi mais longe do que planejou e criou uma persocom com espírito, alma, consciência, subconsciente e inconsciente. Mas o bom em se trabalhar com a fantasia é que nela vale tudo, principalmente poder criar o impossível e o improvável. E como um dos ingredientes do sucesso em uma série é deixar tudo pior antes de ficar melhor pra apertar o coração dos fãs da série e depois fazê-los chorar com “o milagre do amor”, esta é uma falha perdoável.

A oitava falha está nos momentos finais da série. Hideki passa a série toda sofrendo num dilema moral para admitir, no início do último capítulo, que ele ama Chii. Entretanto, nem mesmo após toda a aflição do último capítulo, seguido da declaração de amor entre Chii e Hideki, nem com os acontecimentos dramáticos que acontecem na sequência dos fatos, nem na última cena do último capítulo o autor se digna a presentear os fãs da série com um beijo do “casal”. Um capítulo extra de número 27, que resume os momentos mais dramáticos de Chobits foi produzido; e nele eu esperava ver o beijo de amor de Hideki e Chii. Pura ilusão! Os dois não fazem mais do que se abraçarem e andarem de mãos dadas.

A CLAMP conseguiu o mais difícil: fazer pessoas reais (os fãs da série) acreditarem na possibilidade de um humano se apaixonar por uma máquina. Por que, então, não produzir a cena do humano beijando a máquina? Mas esta ausência de beijo de amor em cenas finais das séries parece ser outra marca da CLAMP, pois em Kobato acontece a mesma coisa. Que a CLAMP e a MADHOUSE me odeiem se quiserem, mas isto é a mais descarada hipocrisia se considerarmos as roupinhas de Chii, a libido de Hideki até em seus sonhos, as roupinhas estilo “hentai” das persocons domésticas de Minoru-san e as várias outras situações insinuantes na série Chobits, como a noite em que a professora Shimizu dorme no apartamento de Hideki para fugir de Shinbo. O único erro de continuidade que foi corrigido no capítulo 27 tem relação com a razão de Hideki estar em Tókio: o vestibular. Mesmo assim não fica claro que ele tenha sido aprovado ou não.

Mas até neste ponto eu acho que a MADHOUSE perdeu a oportunidade de fazer melhor. E o melhor poderia começar por não produzir o capítulo 12. Com isto, o capítulo que hoje é o de número 26 se tornaria o capítulo 25 (isto para quem considera a numeração dos capítulos como o autor desta resenha) e este seria o penúltimo capítulo, que poderia terminar com Chii e Freya sendo apagadas, já que a MADHOUSE quis assim. Isto faria os fãs da série sofrerem um pouco mais, se as exibições dos capítulos fossem semanais.

O capítulo 26 poderia começar com Hibya-san levando a “filha” pra casa depois de tê-la formatado no terraço. Hideki, inconsolável, iria para o seu quarto arrumar as malas para procurar outro lugar para morar enquanto rememorasse tudo pelo que passou com Chii ao seu lado e, somente na noite seguinte, no momento dele ir embora, Hibya-san estaria esperando por ele na porta do condomínio com Chii e este seria o momento para Hideki dizer todas as coisas que disse no terraço. Daí sim: Chii de voltaria para Hideki; e eles trocariam um longo e apaixonado beijo na boca, para emocionar os fãs da série e acabar com a hipocrisia.

Temos a nona falha (quase me esqueci dela): Jimma (Zema) diz a Hideki que quando Chii encontra a “pessoa só para mim”, ela se conecta com todos os persocons do mundo e executa um tipo desconhecido de programa. Tudo acontece e ninguém fica sabendo a finalidade deste programa. Como quem leu o mangá e viu o filme, eu vou desfazer esta falha da MADHOUSE: o sonho de Ishiro Mihara era que todos os persocons fossem como Chii e Freya, mas o governo interferiu nisto. Então as Chobits foram criadas para: buscar e encontrar a felicidade; armazená-la em dados e, então, conectarem-se aos demais persocons para transmitir uma atualização de sistema que tornasse todos os persocons do mundo iguais às Chobits. Freya falha em cumprir este objetivo, mas Chii obtém sucesso com Hideki. Ao encontrar “a única pessoa para si”, Chii conhece a felicidade. Os dados são tantos que Jimma não aguenta o volume (isto acontece no capítulo 25). Feito isto, Chii se conecta com todos os persocons do mundo para compartilhar estes dados. Isto foi a realização do sonho de Ishiro Mihara: humanizar todos os persocons do mundo para assim permitir que eles se aproximassem da natureza humana também buscassem a felicidade junto dos humanos.

Quem assiste ao último capítulo deve reparar que, ao reconhecer que Hideki é o sinônimo da sua felicidade, Chii reluz e os seus olhos adquirem pupilas iguais às dos seres humanos. O mesmo acontece com os olhos de todos os persocons. É neste momento que eles se humanizam. Outra prova disto é que Dita fica com o rosto corado quando Jimma a abraça, e caçoa dela dizendo: “porque você ficou vermelha? Você é apenas uma persocon”. Ou seja, Dita foi humanizada e nem percebeu.

Enfim, chegamos à décima falha. Ela é a última e também a grande falha de Chobits. Após assistir a série toda, passei dias intrigado tentando entender quais seriam as coisas que um persocom não pode fazer, se eles são feitos e programados para fazer de tudo (e Chii ainda tem a incrível habilidade de levitar sem um mísero par de asas). Em especial, fica obscuro o que a Chii não podia fazer.

Como eu assisti ao amine com áudio original em Japonês e legendas em espanhol, procurei e assisti novamente com legendas em português, o que me esclareceu mais quando Dita conversa com Hideki e explica que quando alguém pratica sexo com persocons, elas não engravidam. Então entendi que, na adaptação da MADHOUSE, o que Chii não pode fazer é ter filhos e, uma vez que ela percebe isto, Chii decide deixar Hideki para que ele não sofresse ao viver com ela sem poder realizar-se sendo pai.

O mangá explica esta parte com outro argumento. Como o botão de reinício de Chii localiza-se na sua vagina, se Hideki tentasse ter relações sexuais com ela, o botão seria acionado e ela seria reiniciada, perdendo todas as memórias novamente e voltando ao estado em que Hideki a encontrou. Mas o anime não aborda este argumento e, neste ponto, eu volto a afirmar que a MADHOUSE abusou da presunção de que todos os que assistiram à série também leram o mangá. Abusou também da capacidade intuitiva dos espectadores sem dar mais pistas a respeito do assunto.

A série em anime dá pistas de que os persocons de porte compatível com o do ser humano podem ter relações sexuais. Alguém é ingênuo de acreditar que, se um dia os persocons existissem de verdade, não haveria uma linha de persocons prostitutas que fizesse as mulheres infláveis desaparecerem do mercado? Não. Se o marido da professora Shimizu a abandonou para ficar com uma persocom é porque os persocons podem fazer sexo com certeza; e talvez melhor que os humanos, porém sem poder gerar filhos. Isto seria abusar da fantasia.

Mas o que mais os persocons não podem fazer? Foi tentando encontrar esta resposta que eu acabei encontrando a falha maior de Chobits.
A grande falha de Chobits é a razão da série não poder ter uma continuação muito extensa nem no anime e nem no mangá. E é também outra das razões pelas quais eu afirmei que a fusão da ficção com a realidade não é perfeita em Chobits. Trata-se de um detalhe simples: uma das coisas que os persocons não podem fazer é envelhecer.

Acompanhe o raciocínio: Chii tem a aparência e o corpo de uma mocinha entre quinze e dezessete anos; Hideki tem dezoito e está por fazer dezenove (e é outra falha que no decorrer da série, que o aniversário dele passe sem ser comemorado já que Chii o ama tanto e procura fazê-lo feliz de muitas maneiras), mas o detalhe relevante aqui é que Hideki vai continuar envelhecendo como todo ser humano normal. Ora, um namoro de uma garota de quinze anos com um rapaz de até 20 anos é aceitável. Se ela tiver dezesseis anos o rapaz pode ter 22. Mas imagine Hideki com 34 anos – o dobro da idade que se pode atribuir a Chii – ou ainda com quarenta! Isso mudaria a natureza do relacionamento deles porque seria visto como um caso de pedofilia. Péssima influência para os fãs da série em qualquer parte do mundo.

É claro que no terreno da fantasia tudo é possível. Hideki pode passar no vestibular, tornar-se um cientista (impossível de se imaginar isto com o Q.I. de Hideki, mas a fantasia faz estes milagres) e, com o apoio de Hibya-san e Minoru-san, criar um novo corpo aparentando maior maturidade física para transportar a memória e os atributos de Chii. Neste contexto, muitas situações dramáticas e emocionantes poderiam ser criadas. Porém, parece que a mediocridade é generalizada na MADHOUSE e na equipe CLAMP. Para eles, Chobits é um produto e, como tal, do ponto de vista financeiro, pode não ter rendido o suficiente para o conceito “clampiano” de sucesso, ao ponto de motiva-los a um investimento mais sério; apesar do sucesso de público ser incontestável. Penso que talvez em Chobits a equipe CLAMP entendesse que estava dando um fim honroso na sequência iniciada em Angelic Layers e, por causa disto, a série Chobits não teve continuidade (porque ela já era um fim). Mas isto é só uma elucubração especulativa. Uma abstração minha.

Quanto à ressalva relacionada com a sonoplastia, trata-se de um deslize que observei até mesmo no final do filme O Pequeno Príncipe, mas que não faz disto um exemplo digno de ser seguido por outros estúdios que aspirem ou não ao mesmo patamar. Quando a última cena do anime fecha, o espectador ainda está sob o efeito emocional pretendido pelos criadores da estória. Ao mesmo tempo em que ele absorve como uma esponja cada segundo final do último capítulo, ele também sente aquela pequena dor de quem sabe que a estória termina ali. Neste momento, a sonoplastia comete uma indelicadeza: golpeia os ouvidos de todos com a música “katakoto-no-koi”, tendo tantas músicas suaves e lindas na trilha sonora para consolar os ouvidos do espectador. Esta grosseria soa como um inconveniente grito de gol seguido de um palavrão no meio de um velório. Como mencionado, a Warner cometeu a mesma indelicadeza no final do Pequeno Príncipe e até hoje eu sinto vontade de dizer ao supervisor de sonoplastia da Warner naquela ocasião algumas coisas que ele e o seu equivalente na produção de Chobits são muito dignos de ouvir.

Enfim, Chobits é muito bom; e a prova disto é o seu sucesso. Mas podia ter sido melhor e faltou muito pouco para isto. O público que consome o produto final o avalia pelos efeitos emocionais que produz e porque, em seu discurso, o produto não deixa de fazer apologia aos valores mais caros para o povo japonês, para o qual muitas coisas – já banalizadas pelos ocidentais – são e serão sempre sagradas.
Como aventura, Chobits cumpre bem o desafio de emocionar e cativar os espectadores, embora deixe lacunas que só serão preenchidas se o espectador se dignar a ler o mangá. Seria uma estratégia de marketing? Produzir uma série com falhas de continuidade para vender revistinhas? Se for isto, a mediocridade é mais crítica do que eu pensava.

Já como produto, Chobits pareceu-me um trabalho piloto lançado na mídia como isca na esperança de que o cinema americano engula o anzol e se interesse em gastar dinheiro para transformar o rascunho em arte final. Isto pode ser vislumbrado em pequenos detalhes, como a incidência sutil do inglês no anime, desde a música de abertura (let me be with you), em algumas cenas dos episódios e no fato de Chii ser a única persocon branca e loira num país de etnia amarela. Logo, quem teve esta ideia não estava pensando apenas em destacar Chii das outras persocons da estória. Então, se um dia uma companhia cinematográfica europeia ou norte-americana adquirir os direitos de Chobits para produzi-lo para o cinema com atores reais, ficará mais fácil encontrar uma atriz branca caucasiana para encarnar a personagem. E se este pensamento for correto, considerando que só agora no século XXI o cinema americano apostou na megaprodução de Ultraman que era do tempo da minha adolescência, talvez os meus sobrinhos netos vejam Chobits virar uma superprodução em algum tempo remoto do futuro quando, talvez, os persocons já existam de verdade. Este filme, se bem produzido, eu bem gostaria de ver, mas tenho cá as minhas dúvidas...