"Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" (Isaías 5: 20).
Será que os intelectuais acham inteligente
contradizerem a si mesmos? Eu pergunto isto porque é preciso ser um intelectual
para escrever um bom livro, mas isto não é tudo; também é preciso estudar muito,
ser instruído e culto. Logo, a educação é e sempre deve ser o estandarte de um
bom escritor. Não somente a dele mesmo, mas a dos seus leitores. Um escritor
sempre contribui para a formação do pensamento e do imaginário alheios e
acontece que o pensamento e a imaginação fazem parte dos alicerces de um bom
caráter. Então, se é assim, por que alguns intelectuais acham inteligente criar
obras que deseducam?
Pode ser que alguns leitores não tenham
lembrança nem conhecimento do que vou comentar aqui, mas eu sim. Eu era criança
quando os filmes da devassa Emmanuelle escandalizavam a sociedade. A imoralidade europeia é antiga, pouco conhecida e, embora fosse boa de ser vista o cinema, não
era boa ao ponto de ser aceita na sociedade brasileira no tempo da minha
menoridade. Os filmes de Emmanuelle eram do gênero erótico, mas a sociedade os
encarava como se fossem pornográficos.
Hoje o cinema erótico aparece como algo sem
graça, pois, pelo que tudo indica, o cinema pornográfico deixou de ser vulgar e
alcançou o status de “cultura”. O raciocínio é simples e pode ser expresso por
um adágio popular que diz: “desgraça pouca é bobagem”. Em outras palavras, se a
nudez feminina e os pelos pubianos podem ser exibidos, então por que não exibir
também o sexo explícito de uma vez?
Muitos não sabem, mas a proposta do romance
pornográfico é coisa bem antiga. Eu era um jovem no primeiro ano do segundo
grau em 1981 quando os cinemas exibiram o filme: “O Império dos Sentidos”, cuja
produção é de 1976, mas que só foi exibido no Brasil cinco anos depois,
certamente devido ao marketing fraco e à intervenção da Censura Federal, que
ainda estava longe de ser extinta no nosso país.
“O Império dos Sentidos” é uma produção
jurássica na história do cinema. É preciso enfatizar tanto para quem nasceu
naquele ano quanto para quem nasceu uma década depois que, naquele tempo,
ninguém sonhava que um dia haveria internet. O que importa é que este filme foi
o escândalo daquela ocasião e, mesmo os adultos que não haviam visto este filme
evitavam comentar sobre ele perto de crianças e adolescentes. A pornografia
nunca mais foi a mesma depois dele, mas ainda estava a décadas de ser
considerada “cultura”, como está sendo agora.
Mesmo depois de ter feito dezoito anos, eu não
me interessei por procurar este filme, ainda que para satisfazer a curiosidade
e ter a minha própria opinião. Hoje, em tempos de internet e de Youtube, mediante
o frisson causado por este filme do qual eu me recuso a fazer mídia no meu blog,
foi que eu lembrei-me de “O Império dos Sentidos” e fui à busca de cenas do filme
para poder citá-lo, comentar sobre ele e certificar-me da possibilidade de
colocá-lo em paralelo com esta outra produção tão comentada atualmente.
A princípio, fiquei surpreso por ver que a
trama ocorre no Japão (e já não gostei desde aí, pois eu tenho o povo japonês
em alta conta). Depois de assistir às cenas mais comentadas na ocasião, senti-me
grato por nunca ter gasto um centavo sequer para ver um trabalho de tamanho mau
gosto, como é este outro filme tão em voga e que deveria ter sido produzido em
preto e branco para fazer jus ao seu título.
Depois disto, a minha conclusão é a seguinte:
se a liberdade pode ser definida entre outras coisas como uma forma de poder,
então o historiador Lorde John Emerich Edward Dalberg-Acton (1º barão Acton) está
coberto de verdade pelo seu célebre pensamento, que diz: "O poder tende a
corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes
homens são quase sempre homens maus."
Digo isto porque está claro que o excesso de
liberdade, do mesmo modo que o excesso de familiaridade, leva à falta de
respeito. E quando eu digo isto eu não estou me referindo exclusivamente à
escritora dos livros que deram origem ao filme e nem aos produtores dos mesmos.
Eu me refiro aos milhares de leitoras que não apenas foram cativadas pelo
personagem masculino através dos livros daquela autora, mas também o elegeram
em suas concepções pessoais como o homem ideal, pois, por si só, esta atitude
me revela, de maneira clara e inequívoca, que a liberdade conquistada tão arduamente
pelas mulheres através de anos, tão somente serviu para que estes mesmos milhares
de leitoras perdessem completamente o respeito por si mesmas.
Tudo bem... Se eu já consegui encontrar quem
defendesse a cantora Britney Spears, não será difícil encontrar intelectuais de
testa larga (e os de testa estreita também) que defendam este lixo cultural que
poderia muito bem ter ficado apenas nas páginas dos livros, já que a escritora
não foi capaz de mantê-lo como uma abstração íntima. Não é de agora que amor tem
sido confundido com sexo e a importância do sexo seja cada vez mais banalizada,
devido à forte conotação do sexo com a prostituição, graças à educação sexual
porca e imoral do estado laico e à total ausência de um ensino de ética e moral
aplicadas ao sexo, as quais abrem uma lacuna que vai ser preenchida pelos
ditames da mídia, como é o caso deste péssimo exemplo do que não fazer que vem
sendo projetado nas telas dos cinemas e pelo qual as pessoas ainda pagam para
assistir, multiplicando a renda de quem não vai se preocupar com os efeitos
futuros da sua influência nefasta.
O verdadeiro amor é sublime e, com ele, o sexo
pode ser visto como uma das maiores belezas naturais criadas por Deus e vistas
por Ele como algo bom. Só o verdadeiro amor dignifica o sexo e somente o sexo
com amor e por amor produz o prazer que as pessoas moralmente cegas buscam em
vão nas muitas formas pervertidas de prática sexual, como o sadomasoquismo.
Enfim, o amor ainda é o elemento que torna o
mundo muito mais colorido e manifesta as muitas cores da vida. A policromia não
é honesta e nem saudável quando temos muitos tons de uma mesma cor que nos
remete à morte.