Esta
resenha foi escrita para comentar o desenho animado japonês (ou anime)
intitulado CHOBITS, uma produção do grupo CLAMP (クランプ), formado pelas quatro artistas: Ageha
Ohkawa (大川
緋芭), Mokona (もこな), Tsubaki Nekoi (猫井
椿) e Satsuki Igarashi (いがらし 寒月),
também autoras de outros trabalhos conhecidos pelos fãs de mangás e animes,
como: Sakura Cardcaptor (カードキャプターさくら), Kobato (こばと), Tsubasa Chronicles (ツバサ・クロニクル) e Angelic Layer (エンジェリックレイヤー). O nome original da série é escrito: ちょびっツ, e lê-se: CHOBITTSU. Como mangá (revista em quadrinhos com
desenhos em preto e branco) Chobits foi publicado originalmente pela KODANSHA
em 2001 e 2002. A versão em anime foi adaptada pela MADHOUSE (lt. casa louca)
em uma série de 27 episódios, incluindo os capítulos 8.5, 18.5 e 24.5 que
resumem seus episódios anteriores. Há ainda um especial cômico de curta
duração, produzido após o final da série. A estréia no Japão, leste e sudeste
da Ásia foi ao ar em 2 de abril de 2002 e terminou em 24 de setembro do mesmo
ano. No Brasil, Chobits foi lançado pela JBC em 2003, em 16 volumes.
Vale
esclarecer que existem dois gêneros de desenhos japoneses: o gênero: seinen (青年)
que significa: "homem jovem" e compreende homens entre 20 e 40 anos,
sendo, portanto, um desenho de caráter mais sério e picante; e o gênero Shōnen
(少年) significa: “garoto” que é voltado para o
público infanto-juvenil e, portanto de caráter mais inocente. CHOBITS se
enquadra no gênero seinem.
Já deixo claro que conteúdo desta resenha é um spoiler. Se o leitor ainda não viu a série e
não quer que eu estrague algumas surpresas, eu recomendo que antes assista a série e, se tiver paciência, também leia o mangá, pois é nele que está a estória original. Digitando “Chobits” no Youtube é possível encontrar a série inteira falada em
japonês com legendas em português, assim como é possível encontrar o mangá
traduzido para o português digitando: “chobits mangá” na busca do Google.
Considerando
que o leitor poderá desejar conferir os comentários com o conteúdo do anime, é
importante enfatizar que esta resenha observa a contagem sequencial dos capítulos
de 1 a 27. Portanto, os capítulos 8.5; 18.5 e 24.5 são comentados aqui como
sendo respectivamente os capítulos: 9; 20 e 27. Também a título de orientação vale
enfatizar que esta resenha foge ao convencional por não conter breves resumos
dos capítulos da série em anime e nem do mangá. Ainda assim, o volume do texto
a seguir é consideravelmente grande. Em seu original, totalizou 23 páginas do Word;
volume que o autor atribui à grande miríade de detalhes observados e dignos de
serem comentados. Também não é objetivo desta resenha estabelecer uma
comparação pontual da estória de Chobits em anime com a do mangá, embora
recorra ao mangá para explicar eventos não muito claros no anime.
Eu
tomei conhecimento da existência do anime Chobits em 2006, devido à minha amizade
com uma fã de mangás e animes. O foco da curiosidade na ocasião foram as
orelhas da personagem principal, detalhe que também será explicado nesta
resenha. Porém em 2014, devido ao empreendimento do autor no aprendizado do
idioma japonês e da motivação pela convicção de que só se aprende mais
rapidamente um idioma quando se estabelece uma convivência diária e prazerosa
com o mesmo, o autor decidiu assistir a série, vislumbrando uma melhor
oportunidade de aprendizado ao identificar-se com a situação da personagem de
Chii, a qual, no início da trama, devido a sua perda de memória necessita
reaprender tudo desde o zero; inclusive a conversação em Japonês. Daí a decisão
por aprender junto com ela não apenas o idioma, mas algo da cultura e do senso
comum do povo japonês. Porém, depois assistir a série em coisa de três ou
quatro dias, sendo exposto à toda gama de emoções inerentes a ela e ter
observado algumas particularidades, surgiu também a intenção de escrever esta
resenha, para uma maior e melhor compreensão da complexidade do anime em sua
dinâmica e em seus detalhes.
A seguir, a descrição dos personagens de
Chobits:
Quem é Chii-Chan?
Chii (ちぃ)é a Chobit
número dois e é a personagem central da estória. O penúltimo capítulo da série
em anime vai revelar que seu nome original era Elda (エルダ - Eruda na pronúncia japonesa). O
sufixo “Chan” é usado no Japão como um tratamento carinhoso dado às meninas e
soa como diminutivo. Seria algo como chamá-la de “Chiizinha”.
Quem é Freya?
Freya (フライヤ - Fureya na pronúncia japonesa) é, por assim dizer, “irmã” de Eruda (Chii)
e não possui outro nome, embora os seus fãs a chamem de Dark Chii ou A Chii Negra. As revelações do penúltimo capítulo vão esclarecer que ela foi a
primeira Chobit a ser criada.
Quem é Hideki?
Hideki Motoswa (本須和秀樹), numa
definição rápida, é um caipira. Ele está por fazer 19 anos e fracassa no seu primeiro exame vestibular (ronin como são chamados no Japão); e
decide ir para Tókio para estudar, prestar novos exames e tentar ingressar na universidade. Por ter vivido sozinho no campo e não ter mais do
que cavalos e bois com quem conversar, costuma falar sozinho em público e isto
vai lhe render situações constrangedoras na
cidade grande. Ele é um rapaz virgem e muito tímido, que tem fantasias eróticas
com quase todas as mulheres que conhece, mas à vista de uma mulher seminua tem
sangramento no nariz.
Por que Chii tem aquelas orelhas?
Como eu disse, esta foi a minha primeira curiosidade em Chobits. Chii é uma persocon (personal computer) e não apenas ela, mas todos os persocons têm orelhas assim. Acontece que, tal como os computadores
atuais, os persocons possuem entradas e saídas que permitem toda classe de
conexões. Estes cabos de saída e slots de entrada localizam-se na região onde
um ser humano tem suas orelhas. Aquelas estruturas em forma de conchas que
parecem substituir as orelhas nos Persocons
são, na verdade, duas capas de fechamento hermético, feitas para proteger estas
entradas e saídas de dados para que não acumulem sujeira e não molhem em contato com a água, pois os persocons também tomam banho e ocasionalmente ficam expostos à chuva.
Quem Hibya Chitose ou Hibya-San?
Hibya Chitose ( 日比谷 千歳 ) é a senhoria e zeladora do condomínio Gabu Jougazaki, onde Hideki irá morar quando chegar a Tókio. Por isto é chamada de Karinrin-san. Hibya-san é uma personagem pré existente do desenho Angelic Layer e, no universo de Chobits, ela é a viúva de Ishiro Mihara, outro personagem do mesmo desenho. A trama de Chobits vai revelar mais sobre a identidade dela.
Quem é Hiromu Shinbo?
Shinbo Hiromu (新保弘) é o morador do quarto vizinho ao de Hideki no
condomínio Gabu Jougasaki. Ele é um rapaz da idade de Hideki, que também está
se preparando para entrar na universidade. Possui um conhecimento comum de
usuário de Persocon, pois possui uma unidade portátil chamada Sumomo (すもも), uma
bonequinha muito esperta e ruidosa.
Quem é Takako Shimizu?
Shimizu Takako (清水多香子) ou Shimizu sensei como é chamada, será professora de Shinbo e Hideki no cursinho pré-vestibular. Ela leciona inglês, literatura e matemática. É uma mulher
casada, mas o marido vai trocá-la por uma persocon.
Quem é Minoru-San?
Kokubunji Minoru ( 国分寺 稔 ) também é outro personagem pré existente do desenho Angelic Layer. Trata-se de um garoto prodígio de 12 anos que herdou a fortuna dos seus pais. Ele é um gênio da informática e possui cinco Persocons, dentre as quais uma é a principal: Yuzuki (柚木). Além de ter mais recursos do que as outras quatro persocons, Yuzuki é uma réplica da falecida irmã de Minoru-san, na qual ele inseriu todas as lembranças e informações disponíveis sobre a sua falecida irmã, o que revela a sua extrema dificuldade de ter aceitado a morte da mesma. Minoru-san vai se tornar amigo de Hideki e ajudá-lo na investigação a respeito da origem e do passado de Chii. Sua participação, porém, será mais abrangente quando Chii passar por alguns apuros durante a trama.
Quem é Yumi Omura?
Ōmura Yumi (大村裕美) ou Yumi-Chan é
uma jovem estudante de 17 anos que vai conhecer Hideki quando ele estiver
procurando emprego para manter-se em Tókio. A estória original no mangá a
identifica como funcionária do estabelecimento onde Hideki vai trabalhar – a
cantina chamada Yoroconde (com prazer). Na adaptação para o anime, Yumi aparece
como filha do proprietário da cantina. A estória insinua que ela irá se interessar por Hideki, o que acena com o risco de uma rivalidade entre ela e Chii, porém esta possibilidade desaparece quando a trama revela uma ligação passada e mal resolvida entre Yumi e Hiroyasu Ueda.
Quem é Hiroyasu Ueda?
Ueda Hiroyasu (植田 弘康) é um confeiteiro que tem um
estabelecimento onde produz e vende doces feitos com receitas alemãs. Por seu
status também é chamado Ueda Tenchou (gerente Ueda). Ele será patrão de Chii
quando ela estiver em condições de trabalhar. Com Ueda, o autor da trama propõe
uma situação profética: se no futuro informática podem não somente se
apaixonarem por seus computadores, mas também desejarem se casar com eles. Ueda
tem um passado triste ligado à primeira Persocon que ele teve e, em função
disto, terá também um passado mal resolvido com Yumi-Chan.
Quem é Kojima Yoshiyuki ou Dragonfly?
Yoshiyuki Kojima ( 小島 良由起 )
(codinome Dragon-Fly – libélula em inglês) é um hacker que aparece na segunda
metade da trama. Ele é rico e não tem escrúpulos. Vai ser atraído pelo fato de
Chii ser uma Chobits e vai sequestrá-la para tentar invadir seu sistema e
explorar o seu mistério. Azar dele.
O
cenário é o futuro; porém um futuro mais próximo da realidade atual sem
alterações radicais. Nada de carros voadores, armas a laser e pessoas que
desaparecem num lugar para reaparecer em outro. Nada de roupas futurísticas
grudadas no corpo e botas. As pessoas usam jeans, ternos, swetters, jaquetas,
vestidos, saias e calçam sapatos, tênis ou chinelos.
No
imaginário da equipe CLAMP, a estória de CHOBITS propõe um futuro no qual, além
de projetar – logicamente – a possível evolução da informática, propõe também
as situações decorrentes da interação entre os seres humanos e os computadores
do futuro. E no futuro proposto em CHOBITS os aparatos de informática que hoje
fascinam as pessoas pela comodidade e infinidade de recursos que proporcionam,
estariam reunidos em uma só máquina: o persocom (derivado de personal
computer).
Os
persocons não são robôs, não são androides, e nem são autômatos; eles são
persocons. Eles não apenas reúnem em si todos os recursos dos aparelhos
digitais que conhecemos hoje, mas possuem a inteligência artificial e a
habilidade de – conforme a sua programação – simular a personalidade humana;
tudo isto com um detalhe tão fascinante quanto perigoso: eles possuem a forma
humana e interagem com a sociedade como pessoas reais. Disto decorre uma
miríade situações que vão muito além da dependência cibernética já observada no
mundo atual, como o envolvimento emocional entre seres humanos e seus
persocons, que a trama de Chobits aborda de forma convincente, contundente e,
até certo ponto, profética.
Neste
cenário, as Chobits seriam um tipo especial, raro e muito mais avançado de
persocons. Se os persocons normais são o máximo da informática, as chobits são
a coroa dos persocons. Por isto a história atribui às Chobits uma lenda urbana,
segundo a qual elas seriam dotadas do livre arbítrio, motivação própria e
inteligência emocional, o que lhes confere a capacidade de agir além e
independentemente da sua programação, sentindo emoções e, tomando decisões. Por
tudo isto, as Chobits teriam a capacidade de buscar a felicidade individual no
encontro de uma única pessoa para amarem e serem aceitas e amadas como são.
Esta pessoa é tratada na estória como: “watashi dake no hito” ou “a única
pessoa para mim”. Outras partes da estória também a identificam como
“tokubetsuna no hito” ou “a pessoa especial”, ou ainda “watashi no tokubetsuna”
(meu especial).
Como
todas as respostas aos mistérios que envolvem Chii só são reveladas no
penúltimo capítulo e as explicações para tudo se encontram na criação das duas
Chobits, a sinopse da estória começa, na verdade, pela gênese de Freya e Eruda.
Ishiro
Mihara e Hibiya Chitose são personagens pré-existentes, oriundos de outra
estória em anime – porém do gênero shōnen – chamado: Angelic Layer. Em Chobits,
Ishiro Mihara, vendo a impossibilidade da sua esposa Hibiya Chitose ter filhos,
decidiu usar os dados recolhidos em sua pesquisa realizada nos Angelic Layers
para criar o persocom e cria Freya: o primeiríssimo persocom. Porém, vendo todo
potencial que um persocon poderia desenvolver, o governo decidiu intervir para
limitar as habilidades dos persocons para os usuários comuns e usar os mais
desenvolvidos para atuarem como agentes de inteligência e reguladores das
atividades dos persocons no mundo inteiro. Isto causou descontentamento em
Ishiro Mihara, que decidiu trabalhar em um laboratório secreto no subsolo e
terminou a criação de Freya, uma persocom para substituir uma filha.
Ishiro
deu o melhor do seu conhecimento para aproximar Freya da realidade de um ser
humano e, por isto, Freya é a primeira das Chobits. Ela foi dotada da
capacidade de desenvolver emoções e reações humanas e programada para encontrar
a sua “pessoa especial” ou “a pessoa idônea” ou ainda “a única pessoa para
mim”. Porém, o inesperado aconteceu: Freya encontrou o “meu especial” na pessoa
de seu próprio pai e se apaixonou por ele, o que gerou um conflito moral e
emocional em seu interior, pois Freya passou a reprimir o seu sentimento e com
isto assumiu um comportamento distante e frio.
É
preciso entender que Freya não é má, mas por sofrer de um amor que não pode ser
correspondido, torna-se amarga e desenvolve a doença da depressão. Diante de
tal comportamento e sem ainda conhecer a causa, Ishiro e Hibiya decidem criar
Eruda, acreditando que Freya ficaria alegre por ter uma irmã. Freya de fato se
alegra, mas continua a sofrer por amar a seu pai e o dilema moral a leva a
entrar em colapso e deixar de se mover. É quando Eruda, movida de compaixão
pela sua irmã, decide em segredo conectar-se a ela, salvando-a em seu sistema.
Então ambas passam a compartilhar o mesmo corpo. Este fato (que passa
desconhecido por todos que assistem à série e que só vai ser revelado nos
últimos momentos da estória) vai dotar Eruda de uma dualidade que só vai ficar
evidente no decorrer da trama: ela é doce, meiga e pura enquanto ninguém
ameaçar a sua virgindade, mas, uma vez ameaçada, Freya aparece e assume o
controle como a defensora de Eruda e... coitado do agressor!
Na
adaptação do mangá para a série em anime há uma divergência. O mangá revela que
Eruda (Chii) decide perder a memória ao salvar Freya dentro de si e pede aos
pais que seja colocada onde outra pessoa possa encontrá-la, para que não corra
o risco de também apaixonar-se pelo pai ao ter o seu sistema reiniciado. O que
não é previsto por nenhuma das Chobits é que Ishiro Mihara adoece e morre após
estes eventos. Já na série em anime ocorre diferente: o colapso de Freya leva-a
a ser desativada. Temendo que o mesmo conflito moral ocorrido com Freya ocorra
também com Eruda, os demais cientistas do projeto Chobits pressionam o casal
Ishiro e Hibya para também desativarem Eruda. Sua “mãe” Hibiya, entretanto,
apaga-lhe a memória e a mantém em animação
suspensa até encontrar alguém que possa cuidar dela e ensinar novamente tudo o
que ela precisa aprender sobre a vida.
Tanto
no mangá quanto no anime, a pessoa que irá encontrá-la será Hideki Motoswa.
Reprovado no vestibular, ele se muda de Hokaido para Tókio com o propósito de
estudar e prestar novos exames para ingressar na faculdade. Ao chegar a Tókio,
Hideki vê de perto as persocons, das quais só tinha notícias enquanto vivia no
campo. Ele também deseja ter uma persocon, mas é pobre e não tem como adquirir
e nem manter uma. O sonho de Hideki, entretanto, se concretiza na sua primeira
noite em Tókio: ele encontra Eruda desativada e descartada em uma pilha de
sacos de lixo. No primeiro instante Hideki se desespera pensando tratar-se de
um cadáver, até que percebe que se trata de uma persocon; então decide
recolhê-la e leva-la para o quarto onde vive. Ao recolher Eruda, ele deixa cair
e perde o pequeno disco de memória, cujo conteúdo não é revelado no anime e sim
no mangá. A estória no mangá esclarece que aquele disco contém todo o backup de
Eruda; todas as memórias e informações das quais ela precisaria para resgatar a
sua identidade e ser uma persocon normal tal como era antes de ter sido
desativada.
Uma
vez em seu apartamento e em meio a muito despreparo, a primeira dificuldade de
Hideki (que não entende nada sobre Persocons) é descobrir onde fica a tecla
liga/desliga da persocon, até que vai encontrá-la na região da genitália. Como
ao ser ligada, Eruda não sabe coisa alguma e a única coisa que diz é a palavra:
“chii”. Devido a isto Hideki, no segundo episódio, decide dar a ela o nome
Chii.
Por
ter perdido a memória, Chii precisaria da instalação de programas para executar
as funções de um persocom. Mas estes programas são caros e Hideki não tem como
adquiri-los. Shimbo recomenda a Hideki que procure Minoru-san para pedir
orientação e este levanta a suspeita de que Chii possa ser um exemplar de uma
lenda urbana chamada Chobits. Nesta mesma visita, Minoru-san depara com duas
dificuldades: Chii é protegida por algum programa que desativa qualquer outro
persocon que for conectado a ela para examinar o seu sistema. Com isto, não é
possível saber qual é o seu sistema operacional e nem instalar nela qualquer
programa, pois há risco de um dano permanente que não poderá ser consertado, já
que Chii é um modelo exclusivo e a identidade de quem a criou é desconhecida.
Hideki
descobre que é proprietário de uma persocom rara, mas isto não é grande
vantagem porque, sem saber os programas que pode instalar em Chii, Hideki terá
que ensinar tudo à sua persoconzinha, desde o idioma até as tarefas mais
elementares de comportamento social como andar na rua e identificar os objetos
pelos nomes. Esta tarefa vai exigir paciência e render muito trabalho e
angústia para Hideki, mas isto também vai construir um vínculo afetivo entre
Chii e Hideki. Entretanto, Minoru-san percebe que Chii tem um programa de
aprendizagem e é isto que vai ajudar Hideki em sua tarefa.
A
inocência e ingenuidade de Chii vão colocá-la em perigo quando ela decidir
procurar emprego e quando ela andar sozinha pelas ruas. Por duas vezes Chii vai
ser sequestrada e vai sofrer tentativa de abuso sexual. Será nestes momentos
que Chii dará lugar à Freya, que vai defendê-la de uma forma muito especial e
emocionante. Esta atividade de Freya, entretanto, vai atrair a atenção do
governo, que enviará Jima e Dita (dois persocons com sistema operacional igual
ao de Chii) para encontrá-la e desativá-la.
Movido
por arrependimento, Kojima Yoshiyuki (o segundo sequestrador de Chii) vai
ajudar Minoru-san a investigar sobre a origem e o passado de Chii, mas será
Yuzuki – a principal persocom de Minoru-san – quem vai conseguir invadir o
sistema de informações do governo (representado pelo persocom Jima) e conseguir
as informações desejadas. Este evento vai revelar o carinho pessoal de
Minoru-san por Yuzuki. De posse das informações conseguidas por Yuzuki, Hideki
descobre o envolvimento de Hibya-san com o passado de Chii e a procura para
pedir respostas, mas ela desaparece proposital e temporariamente.
Quando
se encontram, Hibya-san revela tudo a Hideki, o qual percebe a sua
responsabilidade e importância para Chii. Chega então o momento da verdade:
Chii declara o seu amor por Hideki e pede dele uma resposta. Hideki assume o
seu amor por Chii, mas isto é apenas o início de um momento tenso, pois Chii
tem uma programação especial até então desconhecida para cumprir ao encontrar a
sua “pessoa especial”. Acontece então um momento dramático, no qual se envolvem
Jima e Dita (dois persocons do governo), Freya (que assume o lugar de Chii) e
Hibya-san que tem seu confronto final com Freya e atende ao pedido da filha de
eliminá-la do sistema junto com Chii, sob os gritos desesperados de Hideki
implorando que Hibya não o faça. Num último esforço, Hideki diz ao que sobrou
da persocom o que é a felicidade e lhe declara o seu amor. Chii decide voltar
para Hideki, cumpre a sua programação, e fica livre para ser feliz.
Quando
os primeiros desenhos animados foram criados pelos estúdios Walt Disney, eles
eram voltados para crianças e não tinham o propósito de serem sérios, mas sim o
de dar movimento e voz aos personagens dos livros de estórias que os pais liam
para os seus filhos na hora de dormir e, com isto, encantar e divertir a
criançada. A seriedade nos desenhos animados veio com os personagens das
aventuras Marvel, anos depois, mas a seriedade daqueles desenhos lhes privou do
encanto.
Porém
os japoneses – como o mundo já está acostumado a testemunhar – foram além. Eles aceitaram o desafio e, mais do que conseguir inserir seriedade nas estórias contadas por desenhos
animados, eles as tornaram encantadoras sendo simplesmente intensas e cativantes.
Quando
um trabalho artístico chega a ser apresentado ao público, ele já passou por
processos de pesquisa, avaliação e aprovação dos seus produtores. Se aos olhos dos artistas que criam é isto que faz cada trabalho ser único, sob o crivo do capitalismo é exatamente isto que faz com que todo trabalho artístico seja um produto. E
o produto Chobits é composto dos melhores ingredientes para conquistar e
cativar seus espectadores. Quem o concebeu soube usar os ingredientes certos
nas proporções certas e aplicou como ninguém o modo de fazer.
Duas
coisas são importantes para todo autor e/ou crítico de estórias de ficção: a
construção dos personagens e o desenvolvimento da trama. Como é tão
desnecessário quanto trabalhoso separar estas duas coisas quer seja para uma
análise ou para uma crítica, eu admito não estar disposto a fazê-lo. Toda
estória de ficção tem uma sequência lógica na qual os personagens e suas
trajetórias de vida individual se ligam. Assim, no conjunto das estórias
particulares dos personagens, o autor narra toda a estória principal. E a esta
sequência lógica, bem como às ligações das trajetórias individuais dá-se o nome
de trama ou enredo. E em Chobits a equipe CLAMP fez exatamente isto e fez muito
bem feito.
O
anime Chobits possui enredo ou trama no rigor destas duas palavras porque as
suas autoras criaram uma espécie de teia psicoemocional na qual o carisma e a
intensidade dos personagens envolvem sutilmente o espectador, conduzindo-o a
encantar-se a apaixonar-se por eles e pelo conto, talvez muito mais no anime do
que no mangá. A estratégia de mostrar o cenário e os personagens mais básicos
para depois introduzir a personagem principal (embora isto não seja nenhuma
novidade), funciona perfeitamente: quando Chii aparece, já estamos situados
quanto a tempo, local, pessoas e circunstâncias.
A
construção dos personagens é harmoniosa e admirável. As profissionais do grupo
CLAMP criaram personagens serenos e carismáticos porque eles não fogem à realidade cotidiana, o que torna possível que expectador veja a si mesmo ou se identifique em alguns deles. A estratégia do autor para
criar empatia, bem como uma ligação emocional entre o espectador e estes
personagens é muito bem planejada. Também a ligação dos demais personagens
entre si e de todos com Hideki e/ou com Chii, quer seja direta ou indiretamente
é algo tão natural quanto as ligações de qualquer um de nós com nossos amigos
no cotidiano.
No
início, Chobits parece ser mais um desenho para divertir as pessoas; mas, na
verdade, Chobits é uma novela. Aliás, uma novela séria que, à medida que se
aproxima da metade dos seus capítulos se torna dramática e passa gradualmente a
ser grave. A trama não fica devendo nada às novelas escritas por dramaturgos
brasileiros, e gravadas com artistas reais. O superlativo da dependência
cibernética é a grande tônica em Chobits; e o emprego do tempo futuro com o
consequente aperfeiçoamento das tecnologias torna muito natural não só a
evocação, mas a aceitação deste superlativo.
O
desenho é divertido e descontraído, mas a sua crítica é séria: através de Chobits, o grupo Clamp dialoga com os otakus* e otomes** de todo o japão, chamando-os à razão.
> A título de esclarecimento, muitos japoneses encontram extrema dificuldade para se relacionar com outras pessoas, namorarem e casarem. Estudos são feitos para determinar as causas deste comportamento e a timidez é apontada como um dos obstáculos.
*Otaku é o termo que define os homens jovens e adultos que preferem se relacionar com personagens virtuais somente existentes em aparelhos digitais e, aparentemente, criados para tentar resolver a dificuldade de interação dos japoneses. Na Coréia há um caso real de homem que se casou com uma destas personagens com todos os requintes do cerimonial de núpcias.
**Otomes são mulheres que seguem as mesmas tendências e apresentam o mesmo perfil dos Otakus. Preferem se relacionar com dispositivos digitais ao invés de terem relacionamentos convencionais com pessoas reais.
Se os avanços da
informática moderna acontecem em velocidade meteórica, a projeção disto para o
futuro bem poderia ser a criação dos Persocons e se hoje já existem os Otakus e Otomes, do mesmo modo que, no ocidente, o homem já nos dá
provas de que pode se apaixonar por máquinas como o próprio carro e/ou o
computador; e se através da informática já protagoniza casos reais de adultério
virtual e de dependência cibernética, não seria improvável que o ser humano se
apaixonaria pelo persocom, se ele existisse, conforme Chobits denuncia. Pelo
que a estória une a crítica ao alerta: a ficção pode estar bem mais próxima da
realidade do que estamos dispostos a aceitar. E o próprio desenho (quer seja no
anime ou no mangá) não nos deixa mentir para nós mesmos: quem se apaixona por
Chii – que além de ser uma personagem fictícia ainda representa uma máquina sem
vida e sem alma – sem dúvida se apaixonaria por uma máquina real, como um
notebook, um tablet, um smartphone, ou um persocon.
Chii
é uma personagem emblemática. Ela exprime um ideal de pureza e inocência que
todas as pessoas gostariam de encontrar umas nas outras, mas ninguém tem para
oferecer e, com isto, as autoras da trama levantam um questionamento: seriam
necessárias máquinas sob a forma humana para reaprendermos o que é ser
inocente, puro, sincero e honesto, especialmente no amor? Nós estaríamos
precisando de dispositivos mecânicos de tecnologia digital até mesmo para
reaprender ou para preservarmos os significados destas virtudes?
Dentro
da trama, as autoras poderiam situar o bem e o mal em pontos ou personagens
distintos (como um vilão ou coisa do tipo) de modo que, a partir disso, pudesse
criar as situações de antagonismo e crise que geram as emoções da trama, mas
elas preferiram plantá-los na subjetividade de Chii. Ao mesmo tempo em que ela
é mais pura e boa do que os personagens bons da estória, o “mal” que traz
dentro de si (Freya) torna medíocres todos os pretensos vilões que aparecem de
maneira incidental na trama. O primeiro sequestrador de Chii é literalmente ridicularizado pela primeira aparição de Freya. E diante de outra aparição o segundo sequestrador passa da situação de predador à situação de presa em segundos.
Entretanto,
por serem irmãs, as duas não se opõem uma à outra. Freya não é inimiga e de
Chii, não vive pelo propósito de destruí-la e nem desempenha o papel de quem
tenta induzi-la a fazer o mal. Ao contrário disto ela chega a ser sua
conselheira e defensora, respeitando as decisões da irmã. Ambas convivem em
harmonia dentro do mesmo corpo ao ponto de se poder observar que as autoras
situaram na personagem principal o exato significado do Yin e Yang.
Chii, como
o Yang ou Bem é totalmente Bem, ou seja: totalmente não-resistente; totalmente
cheia de amor incondicional, fidelidade e lealdade; extremamente pura e não
enxerga malícia em nada do que vê; jamais fica irada e nem guarda rancor. Já
Freya é uma concepção diferente do Yin ou Mal conforme o conhecemos: ela é
detentora do conhecimento e da malícia; é depositária do desequilíbrio e da
dor, embora conviva com ambos em situação de serenidade; é neutro quanto a
fazer o mal ou incitar outros a fazê-lo, embora suscite a dúvida. Só existe uma
zona de conflito brando entre as duas e isto ocorre apenas no anime: enquanto
Chii quer viver e ser feliz, Freya considera a si mesma e a Chii como sendo um
fracasso e deseja a extinção de ambas. Mesmo assim, não há luta entre elas e
sim um breve debate verbal que não termina em derrota e sim em respeito e acato,
marca registrada da harmonia entre Yin e Yang. Em síntese: Chii é uma bela que
traz guardada dentro de si uma fera. Como resultado disto, é quase impossível
não apaixonar-se pela persoconzinha Chii-Chan.
Hideki
é o emblema de todo jovem promissor em suas lutas contra as dificuldades para
chegar à universidade e ser alguém na vida. Muitas pessoas (a maioria certamente) já foram um Hideki nesta vida. Ele vive mais num “apertamento” do
que num apartamento, seu dinheiro é pouco e suas necessidades são muitas, ele
precisa trabalhar para se manter e estudar para ser alguém na vida, chega a
passar fome, só vai ter uma Persocon porque encontrará a dele literalmente no
lixo e, ainda assim, até que ela possa desempenhar o papel que os Persocons
foram criados para realizar e amenizar as durezas da sua vida, ela lhe dá bem
mais despesas e requer bem mais dele do que as vantagens que as outras
Persocons oferecem aos seus usuários.
Com esta estrutura, Hideki representa os
ideais mais caros para o povo japonês: simplicidade, benevolência, generosidade
e honra. E, ao situar estas qualidades em um jovem adolescente cheio de
fantasias, dívidas e dúvidas, as autoras da estória nos alertam uma realidade
dura: na medida em que nós crescemos, corremos o risco de nos embrutecer sem
darmos conta disto.
O
vínculo de amor e dedicação que vai sendo criado entre Chii e Hideki tem o seu
ápice em dois episódios distintos: o episódio em que Hideki carrega Chii nas
costas buscando angustiadamente um lugar para que ela recarregue a bateria e
não sofra uma queda de sistema, me remeteu imediatamente às palavras do Pequeno
Príncipe no capítulo da raposa: “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a
tornou tão importante para ti”. No anime, Chii vai retribuir a Hideki no
capítulo 16 (Chii administra) quando ele fica sem dinheiro e ela, mais autônoma
e trabalhando, usa o seu pagamento para comprar ingredientes e preparar um
jantar para ele. É claro que outras situações deixam bem claro o caráter
incondicional do amor recíproco entre ambos, mas especialmente estes dois
episódios que mencionei conseguiram trazer lágrimas aos meus olhos.
Hibya
Chitose é a imagem da mulher japonesa na maturidade: não é apenas a senhoria e
zeladora do seu condomínio; ela é um pouco mãe dos seus inquilinos. Serena, bem
cuidada, dedicada a manter tudo em ordem e devotada à memória do falecido
marido que, aliás, ela ainda ama. E tudo isto ainda é apenas a superfície de um
lago profundo, pois ela é mais inteligente e poderosa do que aparenta. No
mangá, ela é uma personagem mais coerente. A série em anime tornou Hibya-san
uma figura intrigante, mas isto eu vou deixar para a crítica.
Shimbo
é aquele amigo “Bombril” que quase todo mundo tem. Vizinho, colega de escola,
amigo das mil e uma utilidades. Mas também é uma pessoa sensível e com uma vida
própria.
Takako
Shimizu é uma figura um tanto controversa. Seu costume de rir quando falam
sério com ela é uma fachada para não dar continuidade ao assunto e, assim,
dissimular o quanto ela sofre. Não poucos japoneses, homens ou mulheres se comportam desta maneira. Ela é uma mulher que vive um casamento em crise. Do mesmo modo que, nos dias atuais, muitos casamentos acabam por causa do computador e
da internet, o caso da Shimizu Sensei é uma das projeções das autoras da
estória para o futuro desta situação. O marido de Takako (que não aparece na
trama) irá trocá-la por uma Persocon. Ela, juntamente com Ueda e Yumi, são as
“vítimas” do envolvimento entre humanos e persocons.
Minoru-san
é uma figuraça. Quase inexpressivo, inteligentíssimo, trabalha muito, parece
não fazer caso da riqueza, mas sabe muito bem como administrá-la; e não que ele
aproveite pouco, mas aproveita do jeito dele; um jeito muito austero e sereno.
Não é apenas um gênio da informática. É um gênio; e como todos os gênios, tem
uma maturidade precoce e uma serenidade perturbadora porque nos leva a pensar
que ele não tem emoções.
Yumi-Chan
é um docinho de pessoa. Uma quase menina num corpo de uma quase mulher.
Dedicada aos estudos, auxiliadora do pai, trabalhadora, boa amiga e colega de
trabalho. É discretamente fogosa e sonhadora; espera viver um grande amor e ser
feliz, mas é preocupada com o fascínio das pessoas pelos persocons e prefere as coisas do modo tradicional, ou seja, humano com humano.
Ueda-San
é um bom sujeito. Sua aparência jovem e sua serenidade escondem suas dores do
passado. Ele trabalha com doces, mas experimenta uma amargura dentro
de si e, ainda assim, não deixa que isto o impeça de cultivar uma doçura com a
qual trata às pessoas.
A
fusão da ficção com a realidade não é perfeita e na crítica eu pretendo
explicar porque, mas também não é forçada e nem agressiva. Diria que é bem
convincente como a ficção deve ser. Já a estrutura dos personagens e o papel de
cada um na trama nos mostra os valores mais caros para os japoneses e a
realidade deles.
É
digna de muitos elogios a trilha sonora da série, que cumpre de maneira honrosa
o propósito de promover a fusão som/imagem. É impossível não ouvir a música sem
ser transportado à lembrança dos momentos mais singelos da estória. Tal
trabalho aliado a um esforço cuidadoso e sensível dos profissionais de
sonoplastia conferiu ainda maior seriedade a uma produção que, pela sua
natureza de desenho animado, aos olhos da opinião pública não parece envolver
tanto esforço, dedicação e seriedade. Apenas uma ressalva sobre a sonoplastia
do anime deve ser observada na crítica.
Não
passa despercebida a existência de mensagens subliminares neste trabalho, mas
elas são culturais e positivas. As figuras de Yin e Yang já mencionadas são uma
delas. A outra é a repetição contínua do nome “Chii”. Os que desconhecem este
detalhe devem saber que Yin é a força negativa e Yang é a força positiva. Eles
representam a dualidade presente em tudo e em todos os seres vivos. TAO é o
nome dado ao equilíbrio entre estas duas forças e Chii (ou Khi) é a força
interior que todo ser humano adquire quando consegue equilibrar o Yin e o Yang
dentro de si. E teremos a menção ao Khi ou Chii no desenho Dragon Ball e também
em na série Avatar. Portanto, o nome da personagem principal de Chobits é uma
invocação (ou evocação) à força proveniente do equilíbrio das dualidades
antagônicas presentes no ser humano.
Também
o nome Chobits seria um anagrama a ser cuidadosamente estudado. O fato de
terminar com a palavra “bits” relaciona o nome Chobits com o universo da
informática. No mangá há uma menção de que este anagrama teria a sua origem nas
letras do nome de Hibya Chitose. Há, porém, quem acredite que o nome Chobits
tenha relação com o substantivo “witch” (feiticeira em inglês), mas os
anagramas são sempre contestáveis.
O
anime faz alusão ao complexo de Electra (A saber: contrário do complexo de
Édipo. Anomalia psicoemocional caracterizada por um desvio de conduta no qual a
filha se apaixona pelo pai) e o aborda com sutileza. Aparentemente, Ishiro
Mihara criou duas filhas com uma anomalia que ele, como cientista da
informática, deveria prever. Se Freya e Eruda tinham a programação de encontrar
a felicidade numa pessoa a quem elas escolheriam para amar perpetuamente,
Ishiro deveria ser capaz de prever que ele mesmo seria a pessoa mais propensa a
ser eleita pelas filhas, por razões óbvias: ele era o criador delas e nelas
havia muito dele mesmo; elas conviviam mais com ele e a mãe, portanto recebiam
mais amor de ambos.
No estudo da informática existe uma matéria chamada LÓGICA.
Por que isto é importante? Ora, se Freya se apaixonou por seu pai e não pela
própria mãe, isto significa que a orientação sexual de Freya e de Eruda era
para a heterossexualidade. Logo, se esta orientação sexual foi lembrada na
construção do programa avançado das Chobits, seria lógico prever a
possibilidade de Freya e Eruda desenvolverem o complexo de Electra. Porém é de
maneira empírica que Ishiro e Hibya descobrem que ambas tendem a apaixonar-se
por aquele que não apenas lhes ensinar tudo, mas também lhes expressar amor
através da dedicação absoluta. Este destino vai ser cumprido por Hideki na
trajetória de Chii.
Mas
os autores do anime se eximem do erro de não tratarem do assunto com maior
propriedade. Isto porque Hideki é um personagem cuidadosamente criado pelas
autoras da trama para cumprir, na existência de Chii, o papel de um pai. É dele
a responsabilidade de ensinar absolutamente tudo a ela, quase como se faz com
uma criança desde o berço; é ele quem tem que zelar não apenas pela manutenção
de Chii, mas também pela sua integridade em todos os sentidos. Este zelo recebe
ênfase no episódio 3, quando Chii sai sozinha de casa pela primeira vez para
comprar roupa íntima, orientada por Sumomo; e também nas duas ocorrências de
sequestro vividas por Chii, e em outros pequenos momentos da trama. Então,
quando Chii se reconhece apaixonada por Hideki, ela de fato está se apaixonando
por alguém que, embora de maneira intrínseca e subjetiva, é também um “pai”
para ela. E é somente no fato Hideki não ser realmente o criador de Chii que reside toda a
diferença entre o fracasso de Freya e o sucesso de Eruda na tarefa de encontrar a sua
pessoa especial.
Outras
mensagens de cunho educativo relacionadas à moral e bons costumes são
observadas em Chobits. O fato de Chii buscar a felicidade em uma só pessoa para
amar e ser amada é um recado aos jovens para que busquem o amor verdadeiro e a
felicidade em uma só pessoa, ao invés de imitar o comportamento vulgar de
“ficar” com várias pessoas. O primeiro sequestro de Chii ensina uma regra
básica: não conversar e não aceitar propostas de estranhos na rua. E também
mostra Freya advertindo Chii para que não toque em si mesma entre as pernas e
nem permita ser tocada em tal região, pois apenas “a pessoa só para ela” poderá
tocá-la. Já no segundo sequestro é a própria Freya quem assume o lugar e Chii,
domina e repreende o seu sequestrador dizendo: “você não é a minha pessoa
especial; portanto, não te permito entrar!”.
Nestas
situações há uma mensagem clara e direta aos jovens: que não se deixem tocar
por qualquer um e aprendam a repelir o abuso sexual, o que constitui zelo pela
intimidade e pela integridade sexual. Na sequência da cena em que Freya assume
o consciência de Chii pela segunda vez, Hideki aparece e ela declara a ele:
“Chii só quer a uma pessoa; só a uma que é para mim; não permitirei que nenhum
além dele me toque; só ele tem acesso permitido.” Portanto, estas são cenas
educativas na série. Chobits faz apologia à busca pela felicidade no amor
verdadeiro, à fidelidade e lealdade no amor e no sexo, à castidade e à
preservação da virgindade. Tais valores são os que a sociedade Japonesa
conservadora mais preza, em contraste com a cultura do ocidente. Em nenhum
outro desenho animado observei tal apologia sendo defendida de maneira tão
intensa e contundente.
Crítica:
A
estória de Chobits em anime ou mangá pode ser até hoje um sucesso, mas ainda
que isto decepcione os fãs da estória, ela não é uma obra de pura
originalidade. Chobits reescreve a estória de Pinóquio, porém
com outros personagens e novo enredo. É de se reparar que Ishiro Mihara (o criador das Chobits e falecido marido de Hibya Chitose) não
seja outro senão “o Jepeto do século XXI”, por
assim dizer, com a diferença de ser um Jepeto de etnia nipônica. Vejamos as ambiguidades:
. O Jepeto original é velho e vive sozinho, o que faz supor que ele
é viúvo e, dadas estas circunstâncias, ele não pode ter filhos. Já Ishiro
Mihara, como o Jepeto do século XXI, possui um perfil diferente do original: é
casado com uma mulher estéril (Hibya Chitose).
. O velho Jepeto constrói o seu
Pinóquio com madeira; Ishiro Mihara desenvolve um sofisticado projeto de
informática do qual nascem, Freya e depois Eruda (o Yin e o Yang).
. Jepeto é um velho de barbas brancas (concepção européia de Deus) tentando criar um arremedo de Adão; Ishiro Mihara é um homem recriando
uma Eva muitas vezes aperfeiçoada. Ele erra na criação de Freya, porque ela
peca ao se apaixonar por seu próprio pai, mas acerta na criação de Eruda que,
por perguntar frequentemente se cometeu algum erro, demonstra a preocupação por
não pecar ausente em Eva.
. Pinóquio deseja se tornar um menino de verdade; Freya
e Eruda são persocons, ou seja, melhores do que meninas de verdade, salvo o
fato de não terem alma; mas elas possuem sentimentos, desejam amar e serem
amadas, jamais viverão as crises da adolescência, nunca terão tensões pré-menstruais e nunca vão
abandonar os pais. Logo, perde-se em algumas coisas, mas ganha-se em outras.
. Sumomo, por mais irritante que seja, juntamente com Freya desempenha o papel do grilo falante, exercendo a
função da consciência de Chii. Sumomo o faz em plano objetivo e Freya na
subjetividade.
. Em lugar da fada madrinha temos Hibya Chitose. Ela não tem
poderes mágicos, mas tem muita inteligência e conhecimento tecnológico.
Consegue urdir como uma fada o destino da “filha” que ela mesma literalmente
joga no lixo, para que a menina vá do inferno do abandono ao céu da adoção por
Hideki.
É
preciso ainda destacar que esta proposta de reescrever Pinóquio também não é
nova: o diretor Steven Spielberg lançou em 2001 o filme A.I. – Artificial
Intelligence – no qual faz menção direta da estória de Pinóquio e também aborda
o relacionamento entre seres humanos e máquinas replicantes da forma humana.
Também
o cativante envolvimento afetivo de Hideki e Chii não é uma construção
original. Basta assistir aos filmes de Charles Chaplin para ver isto. Percebi
este detalhe assistindo o clássico: Luzes da Ribalta, onde Chaplin repete uma
receita muito comum dele mesmo: um homem que encontra uma garota em situação de
penúria e ajuda-a a resgatar sua vida e dignidade, depois é ajudado por ela
que, enfim, se apaixona por ele. Uma receita infalível para cativar o público
sensível e que deseja ver que o amor e a bondade não desapareceram. E esta
receita pode também ser vista em Chobits pelos leitores pouco conhecedores do
mundo das artes, mas está longe de ser uma receita original.
Pode
ser que alguém não tenha gostado de Chobits, quer seja em anime ou no mangá.
Isto é compreensível. Mas é difícil – senão impossível – negar que Chobits
tenha sido um sucesso. A prova está na grande quantidade de fãs que se
expressam sobre a série em páginas incontáveis de blogs e redes sociais.
Enquanto existiu, o Orkut chegou a ter mais páginas e comunidades dedicadas à
série do que o próprio Facebook. Então é incontestável: Chobits emocionou a
maioria esmagadora das pessoas que acompanharam a estória, quer pelo anime ou
pelo mangá.
O sucesso no Brasil foi grande se considerarmos que a exibição foi
relativamente restrita. Ela se deu através do mangá cujos fãs formam um grupo restrito e da série em anime que não atrai o interesse geral do público
brasileiro no gênero seinen; não foi exibida na TV aberta, só teve versão
legendada e até hoje nem lhe deram uma dublagem em português.
Apesar
de tantos predicados, o anime Chobits não eclodiu na mídia. Em meio a tantos
elogios, é de se estranhar que Chobits não tenha causado um “boom” na venda do
mangá, nem se alastrado pelos canais abertos de televisão, nem atraído a
atenção dos produtores cinematográficos para que fizessem da série uma
superprodução do cinema. Porém isto não chega a ser um enigma indecifrável. Se
Chobits não ganhou as telas de TV do mundo todo e não rendeu muito mais
dinheiro do que poderia às suas criadoras, isto possivelmente se deve ao
tradicionalismo dos seus produtores, o qual terminou condenando Chobits à
mediocridade. Somam-se a isto alguns pequenos erros primários que poderiam ter
sido depurados antes da apresentação ao público; e aqui eu quero enfatizar que
estou me referindo à MADHOUSE que adaptou a estória do mangá para a série em
anime, muito mais do que ao grupo CLAMP que concordou e deve ter participado da
adaptação da estória do mangá para a versão em anime.
Para
ser mais específico, ainda que demorasse mais um ou dois anos, a série Chobits
em desenho animado merecia ter sido desenvolvido em animação computadorizada.
Coisa, aliás, não tão cara e nem fora alcance dos japoneses. Basta dizer que o
bonequinho que aparece andando de costas no final de cada capítulo é feito de
animação computadorizada e dá uma noção do que teria sido Chobits se tivesse
sido produzido naquele padrão de animação. Ao contrário disto e, ainda que esta
resenha venha a chocar os fãs da série, perto do que é sabido que o Grupo CLAMP
pode fazer, a qualidade de desenho e de animação vistos em Chobits deixa a desejar em alguns momentos.
O
anime apresentado ao público preserva o tradicional dos animes japoneses, mas é
nisto que se encontra a mediocridade. Eu suspeito de duas hipóteses: na primeira alguém teve medo de ousar; e na segunda alguém
disse: “vamos fazer como sempre fizemos e como sempre deu certo.” Com isto, em
alguns momentos o anime exibe desenhos mal feitos nos quais se nota que, em
alguns episódios, Chii não foi esboçada pelo mesmo desenhista. Estes erros
depreciam tanto o trabalho quanto os personagens e a competência profissional
de quem aceitou o desafio de dar-lhes movimentos e torná-los “reais”.
Neste ponto alguém exigiria exemplos, pois eu os tenho. Quando Hideki está levando Chii pela primeira vez na mansão de Minoru-san, observe cuidadosamente o perfil de Chii a poucos passos de chegar ao portão. Note como não parece o perfil de uma menina e sim de um macaco. Também depois que Chii toma banho pela primeira vez e ganha um quimono de Hibya-san, logo depois Hideki mostra a ela uma foto que ainda vamos descobrir que é de Freya. Repare nos traços do rosto de Chii quando ela e Hideki estão sentados bem próximos. Depois volte na cena em que Chii lê pela primeira vez o livro que Hideki comprou para ela e repare no desenho do seu rosto. É visível que os dois desenhos não foram feitos pela mesma pessoa.
Cabe
sugerir ao leitor uma breve experiência: assistir à introdução do anime Angelic
Layer e, feito isto, assistir também aos dois primeiros e os dois últimos
capítulos de Kobato. Longe de pretender escrever uma resenha dentro de outra,
esta prática ajudou a elucidar muitas coisas que desejo compartilhar com o
leitor. Uma delas é a unidade contextual da equipe CLAMP: em todas as suas
estórias as garotas são as heroínas e os homens figuram como coadjuvantes
apáticos que só reconhecem seu amor por estas garotas nos dois últimos
capítulos das estórias. Esta unidade contextual, além de ser um traço (senão O
traço) marcante da CLAMP, é também a revelação de como a CLAMP enxerga e
denuncia a sociedade Japonesa.
Note
que as personagens principais de Angelic Layer, Cardcaptor Sakura, Kobato e Tsubasa
Chronicles são garotas. Note também que elas possuem poderes e habilidades
especiais, enquanto os seus amados são meros humanos que mal fazem uso do menor
percentual de seus cérebros. Note ainda que há uma ligeira semelhança de perfil
entre Fujimoto-san (em Kobato) e Hideki (em Chobits). Ambos precisam perder
suas amadas para se curvarem ao fato de que as amam.
Em síntese, a equipe CLAMP
(não por acaso composta por quatro mulheres) deixa bem clara a sua visão social
do mundo: a mulher, para a CLAMP, é poderosa e o homem é um bronco insensível
tão dedicado ao futuro, ao estudo e ao trabalho que não reconhece o amor e a felicidade
nem mesmo quando estes são postos bem diante dos seus olhos. Assim, do mesmo
modo que os filmes para as crianças no Japão são mensagens subliminares
ensinando que o menor pode vencer o maior se acreditar nisto (uma tipologia da
situação do Japão em relação à China e aos Estados Unidos), também a CLAMP
ensina às meninas que elas são poderosas e os homens são uns bocós.
Mas
esta resenha ainda está tratando do desenho e da animação em Chobits. Quando
esta resenha começou a ser escrita, o autor ainda não havia se dado a este
trabalho de observar o antes e o depois de Chobits. Mas após fazê-lo, a
perplexidade e a indignação tornaram-se maior com relação à crítica deste
quesito. Por que a arte do anime Chobits não reuniu a qualidade de animação da
abertura de Angelic Layer com a qualidade de desenho presente em Kobato?
Em
Kobato podemos rever o condomínio Gabu Jougazaki, Hibya-san, suas duas filhas
gêmeas: Chise e Chiho (que são Eruda e Freya, porém humanas). E nisto a CLAMP
coloca a personagem de Hibya Chitose em mais uma de muitas “saias justas”
porque nem ela e nem o seu falecido marido são loiros, mas ela é a feliz mãe
viúva de duas japonesas loiras. Isto é explicável enquanto as duas são
persocons humanoides, mas na condição humana há um constrangimento.
Também em
Kobato veremos Yumi-chan e Ueda-Tenchou. A diferença é um desenho de muito
melhor qualidade e de maior delicadeza nos traços que destacam, entre outras
coisas, a cor da íris dos olhos dos personagens. Para quem conhece (ou vier a
conhecer) estes trabalhos, fica evidente que o Grupo CLAMP simplesmente optou
por não fazer o melhor ao seu alcance em Chobits. É inegável que o anime
Chobits poderia ter tido uma melhor qualidade de desenho, ainda que não fosse
por animação computadorizada; e o que não permitiu isto é algo que só saberemos
se perguntarmos diretamente à equipe CLAMP, se é que vale a pena fazer isto
agora, quando a sua produção já passou de uma década de existência.
Quanto
ao texto de Chobits, o argumento e o diálogo mereciam ter sido mais fiéis ao
mangá e também repensados e reeditados com o propósito de dar à série uma
continuação que fosse anunciada como bônus surpresa para os fãs da série. Isto
feito, o merchandising também poderia ter sido mais forte e abrangente porque,
como eu já disse, parece que alguém ficou acanhado na hora de ousar gastar com
isto. Mas parece que dar continuidade ao que faz sucesso não faz parte dos
planos da equipe CLAMP. Talvez elas acreditem que deixar os fãs querendo mais
pode ser um ingrediente de sucesso, mas o autor desta resenha se reserva o
direito de dar a este ingrediente o nome de mediocridade.
A
adaptação para o anime de uma estória de sucesso em mangá tem,
obrigatoriamente, que obedecer a certos critérios. O primeiro deles é a
supressão de cenas e diálogos do mangá que não ficariam bem no anime. Como eu já disse, o mangá
atinge o interesse de um público mais restrito. Já um anime, uma vez exibido na
TV, pode ser visto por qualquer um que ligue e sintonize a TV no canal onde ele
está sendo exibido. Então é preciso pensar em quem poderá estar do outro lado
da mídia. O outro critério vem do próprio autor (ou autores) da estória:
pequenos detalhes que ele mudaria se tivesse a oportunidade de escrever o
trabalho outra vez, porém sem alterar o eixo central da estória, nem os
destinos dos personagens na trama. Porém existe ainda outro critério: aquele que
deturpa a estória ou partes dela. E em Chobits encontramos estes três
critérios.
Analisando o mangá, percebe-se que no anime houve uma preocupação em
respeitar os espectadores que não fossem fãs do gênero, mas que,
inadvertidamente, pudessem ver o trabalho. Da mesma forma é notória uma busca
por um final que preservasse a fidelidade com a estória original, mas que fosse
diferente em alguns aspectos. Entretanto, houve também uma deturpação nada
discreta e tratarei dela mais adiante.
Os
pequenos erros primários que mencionei são pontos bobos aqui e ali que me
deixaram no ar quando eu vi a série terminar. Ninguém gosta quando uma novela
ou livro chegam ao final; e quando o final chega, raramente agrada a 100% dos
espectadores fiéis. Mas quando uma série ou novela terminam deixando muitas
dúvidas mal respondidas ou sem esclarecimento, isto revela que o PDCA tão
preconizado pelo programa 5S (também de origem japonesa), não funcionou. E, no
caso de Chobits há um pecado: é notória a presunção de que o espectador que se
encantou com o anime, já leu ou vai se interessar por ler o mangá. Se esta
presunção está ligada ao desejo de que o espectador ainda o faça, então eu
considero isto como sendo uma técnica grosseira e nada simpática de marketing.
Como nem todos são afeitos à leitura específica de mangá, as lacunas do anime
correm o risco de permanecerem abertas e isto expõe o trabalho a outro risco: o
de parecer negligentemente incompleto.
Entre
os erros aos quais me refiro, eu destaco a descontinuidade ou falta de conclusão
de alguns detalhes como, por exemplo, o fato da estória começar sendo narrada
no primeiro capítulo por Hideki e terminar sendo narrada por Chii no último. E
ressalto que eu me dei ao trabalho de observar isto tanto no anime quanto no
mangá. Isto quase não é um erro porque Hideki é coadjuvante e Chii é a
personagem central numa estória dentro da qual ela é a quinta a ser introduzida
(as quatro primeiras são Hideki, Hibya, Shimbo e Sumomo) e ainda porque ninguém
se dá conta disto depois dos mais de vinte capítulos entre o início e o final.
O filme: “The Lord Of The Rings” (O Senhor dos Anéis) também começa sendo
narrado por Lady Galadriel e termina sendo narrado por Frodo e nem por isto
deixou de ser um sucesso. Mas o certo em Chobits seria Hideki porque é com ele
que a estória começa e também por uma questão de direito: é ele quem verte
sangue (ainda que pelo nariz) suor e lágrimas do início ao fim da estória, para
que a mesma seja contada.
No
capítulo 1 do anime Hibya-san percebe que Chii está no apartamento de Hideki. É
aceitável que os adaptadores da estória não quisessem ainda levantar suspeitas
sobre a ligação entre as duas (pelo menos para quem não leu o mangá), mas a
ausência de uma mínima reação emocional por parte de Hibya-san naquele momento
me fez, ao chegar mais adiante na estória, atribuir à Hibya-san uma frieza
imoral; afinal, Persocon ou não, Chii era Eruda, a filha de Hibya-san! Ainda
que mínima e discreta, alguma reação deveria ter aflorado nela.
No
capítulo 3, Chii dirige a palavra pela primeira vez à Hibya-san desde que
Hideki a encontrou e, mais uma vez, Hibya-san não tem a menor reação. Mas este
erro não pode ser atribuído a ela; antes é da MADHOUSE. Uma imagem de uma troca
frontal de olhares entre as duas por dois segundos antes que Chii apontasse pra
ela e dissesse: “Hideki!” teria resolvido tudo. A equipe CLAMP se isentou deste
erro no mangá, que mostra alguma reação por parte de Hibya-san. O anime só vai
mostrar Hibya-san tendo uma atenção maior com Chii quando a presenteia com um vestidinho
cor-de-rosa. Isto é tudo o que ela faz por Chii e, indiretamente, por Hideki.
Mas o caráter de Hibya-san na concepção da MADHOUSE é matéria para um
comentário à parte e vou me abster de fazê-lo aqui.
Aliás,
que roupinhas eram aquelas? As roupinhas de Chii são dignas de comentários à
parte. Sabemos que Hibya-san na verdade não estava dando roupas velhas dela e
sim as roupas que já haviam pertencido a Chii quando ela se chamava Eruda.
Falando sério: que mãe veste a própria filha (mesmo que essa filha seja uma
persocon) com uma roupa que transforma uma menina de 15/16 anos numa periguete?
Com exceção do primeiro vestido que ela ganha de Hibya-san (aquele marrom), os
outros exploram bem a sensualidade da menina. Certamente, as roupinhas
prostituidoras usadas por Chii que – justiça seja feita – não via malícia em
nada, não respondem pelo caráter austero das verdadeiras garotas japonesas.
Aquelas roupinhas fazem parte dos apelos sensuais muito peculiares (quase uma
assinatura) da equipe CLAMP e, junto com outros detalhes, tornou Chobits um
produto que os pedófilos de plantão devem agradecer até hoje.
No
bojo deste mesmo contexto, é pertinente observar que a incidência de situações
de nudez, seminudez e vestimenta inadequada – embora sejam características nos
animes do gênero seinen – são conflitantes e contraditórias em uma estória que
se esforça por enaltecer os valores morais da sociedade japonesa, faz apologia
à fidelidade e lealdade no amor bem como à valorização e preservação da
virgindade. Talvez as muitas críticas resultantes desta particularidade após a
estreia do anime tenham sido a razão das roupas tão austeras da personagem
Kobato – a série que veio a seguir.
E
ainda sem perder de vista as descontinuidades, mas dentro do assunto
guarda-roupa, vale lembrar que a segunda roupa dada a Chii por Hibya-san (uma
roupa de estudante) não é vestida durante a série inteira, a menos que existam
cenas excluídas. Aquela roupa só vai ser vista no especial cômico ridículo e de
péssimo gosto que foi produzido depois do capítulo 27.
Os
dois raptos de Chii contêm descontinuidade e incoerência. No capítulo 7
acontece o primeiro rapto e nele devemos atentar para um detalhe quase
imperceptível. Quando Chii é abordada pelo homem de terno verde, ela está
usando o seu vestido marrom – o primeiro que ganhou de Hibya-san. Aquele homem
a conduz a um lugar onde ela troca de roupa porque acredita que conseguiu um
emprego. Após a tentativa de abuso, Freya toma o controle da situação e tira
Chii daquele lugar, ainda seminua. Portanto, ela deixou para trás o seu vestido
marrom. Mas nos últimos capítulos da série, na cena final do capítulo 26 e no
tempo presente do capítulo 27, Chii aparece usando o mesmo vestido que usava na
primeira vez que foi raptada. Quando e como aquele vestido foi recuperado? Isto
não aparece ao longo da série.
O
segundo rapto de Chii contém um erro que o envolvimento emocional do espectador
deixa passar despercebido. Após o rapto, Chii aparece dormindo num dos quartos
da casa de Kojima Yoshiyuki sem identificar o lugar onde estava, o que sugere
que ela estava “inconsciente” quando chegou lá. Como foi que esta inconsciência
ocorreu? Chii desmaiou? Como Kojima conseguiu isto? Ele usou clorofórmio? Não;
os persocons não respiram e, se eles respirassem este artifício que funciona
tão bem em humanos não causaria nada em um persocon. Então a pergunta
permanece: como é possível fazer um persocom adormecer, apenas tapando-lhe a
boca? E, mais especificamente: como foi Kojima conseguiu fazer isto com Chii,
especialmente sem despertar Freya – a defesa de Chii?
Outro
dentre os detalhes do anime que ficou sem ser explicado desde o primeiro rapto
de Chii, é a origem e a identidade da voz que alguns persocons afirmam ter
ouvido quando, por alguma razão, Chii reluzia. Que voz era aquela? A quem ela
pertencia? O que ela dizia? Por que Yuzuki e Kotoko afirmaram que aquela voz as
conhecia e era conhecida delas? Isto vai permanecer no mais profundo mistério,
a menos que o mangá tenha a resposta.
A
cretinice de Chii é mais um detalhe que atravessa a estória inteira sem ser
corrigida. Chii nunca deixa de falar de si mesma na terceira pessoa do
singular. Ela não diz: “Hideki, eu te amo”. Ela diz “Chii ama Hideki”. É sabido
que os japoneses consideram egocêntrica a repetição exaustiva do pronome “eu”
numa conversação ou texto, do mesmo modo que os japoneses preferem tratar as
outras pessoas pelo nome ao invés de usar os pronomes “você” ou “ele/ela”.
Então, quando Chii usa a terceira pessoa do singular em suas conversações para
referir-se ao seu interlocutor, ela não pode ser considerada errada. Mas ir do
início ao fim da série referindo-se a si mesmo na terceira pessoa é um erro
notório do anime, e esta situação persiste mesmo depois de Chii ter passado um
final de semana numa praia, tendo por perto uma professora: a Shimizu-sensei.
No mangá, quando vemos Chii falando de si mesma na terceira pessoa, entendemos que não é Chii e sim Freya referindo-se à Chii em suas poucas manifestações. Eu pensei que a MADHOUSE se
lembraria de resolver isto até o final do anime, senão no fim dele, mas não
aconteceu. Isto constitui outro erro que, todavia, não deve ser atribuído à
equipe CLAMP. Talvez a MADHOUSE tenha apostado neste comportamento como
um dos traços da inocência de Chii, mas eu vejo incoerência nisto, pois se o
programa de aprendizado do qual ela era dotada mostrou ser tão eficiente ao
ponto dela já estar conversando em Japonês no capítulo 3, e já ser capaz de ler
em Japonês no capítulo 4, então deveria haver um momento após a metade da
estória em que esta falha ficasse para trás.
O
capítulo 12 do anime foi um enigma para a minha compreensão por muito tempo depois que assisti à série inteira. Cheguei a considerá-lo como um enigma de continuidade na
série. Nele é contada uma estória de terror que deixa Hideki apavorado. Somente depois de algum tempo estudando o idioma e a cultura japonesa, eu consegui entender que os japoneses gostam de histórias de terror, particularmente na estação do verão. Assim, uma produção japonesa que não tem uma pontinha de terror, é considerada incompleta.
Este capítulo revela um erro que poucos
espectadores dão conta de tão sutil que é: nele, Chii revela ouvir um ruído que
ninguém mais ouve. Porém a origem deste ruído já é revelada no capítulo
anterior, quando Chii tem um encontro com Freya enquanto Hideki vai ao cinema
com Yumi-chan. Então, por lógica, o capítulo 12 deveria ser o 11 e vice-versa.
Com exceção deste detalhe ínfimo, o tempo de um capítulo inteiro foi gasto, a
meu ver, por nada. Se o planejamento era de produzir 27 capítulos no total, então
teria sido mais proveitoso usar o tempo daquele capítulo em coisas mais
essenciais como um desfecho mais digno para a estória, com requintes de
suspense que acrescentariam mais emoção e também maiores e melhores
esclarecimentos que estão presente no mangá, mas faltaram no anime.
No
capítulo 19 Hideki encontra e resgata Chii do seu segundo sequestro. Desta vez,
Shinbo está com ele e interroga o sequestrador que mente dizendo ter sido
seguido por Chii. Neste momento ele é desmentido pela sua persocon móvel Kotoko;
então Shinbo conversa com Kotoko pela primeira vez. Mas no capítulo 26 vemos
Shinbo indo ao apartamento de Hideki para pegar Sumomo e Kotoko para dar
privacidade a uma conversa séria entre Hideki e Chii. Quando isto acontece,
Shinbo cumprimenta Kotoko e esta ainda faz uma avaliação dele, como se ambos já
não se conhecessem antes. Isto é mais uma discordância de continuidade.
Um
grande contraste que faz muita diferença entre o anime e o mangá é o fato que,
no mangá, Hibya e seu marido sabem da decisão de Eruda salvar Freya dentro de
si. Já no anime, Hybia não sabe que Eruda tomou esta decisão e esta revelação
será uma surpresa até para ela no último capítulo. Mas esta diferença gera mais
um erro: se no anime Hybia ignorava que Freya estava escondida na memória de
Chii, então porque ela escreveu o livro A Cidade sem Ninguém com duas
bonequinhas idênticas, diferenciadas apenas pela roupa? A resposta revela o
erro: no mangá Hybia sabia que Freya estava escondida em Chii e, por isto
mesmo, compôs o livro daquela maneira.
Ainda
um detalhe que, creio eu, fez falta na série, embora não possa ser considerado
exatamente um erro, trata-se da ausência de uma cena que mostrasse um persocom
sendo submetido a uma avaliação de raios x. Poderia ter ocorrido com Chii, com
qualquer outro persocom da série, ou mesmo as duas coisas na mesma situação
para um efeito de comparação, já que o objetivo comum de Hideki e Minoru-san
era o de descobrir mais sobre Chii. Acho que isto teria somado mais informação
e acrescentado outras e novas emoções, além de outras e novas linhas de
raciocínio à série. Fica mais uma sugestão para a segunda temporada, ou para
uma possível megaprodução do cinema.
Mas
é no final da série que temos as grandes falhas e, junto delas, a maior falha
de Chobits. Vamos à primeira: a “hora da verdade” no penúltimo capítulo traz
revelações bombásticas, tornando a série mais grave do que dramática. O
complexo de Elektra vivido por Freya e revelado a Hideki por sua mãe Hibya
Chitose causou em mim um frisson de escrever às criadoras da série somente
para perguntar se elas tinham lido alguma obra da dramaturgia brasileira,
porque esta situação da filha se apaixonar pelo pai e “morrer” de paixão são
marcas patentes do mais puro folhetim de Nelson Rodrigues.
Não
que isto seja um erro, mas eu achei forte demais mesmo para um anime seinen.
Talvez o leitor não saiba, mas uma breve pesquisa no youtube pode comprovar uma
quantidade tão surpreendente quanto absurda de animes japoneses abordando
(senão estimulando) o assédio sexual entre irmãos com mais frequência do que
estamos acostumados no ocidente. A CLAMP e a MADHOUSE, assim como os demais
produtores destes trabalhos deveriam levar em consideração que a arte de um
país espelha a cultura daquele país. Analisando por este crivo poderemos
absorver a impressão (equivocada ou não) de que o incesto e o complexo de
Electra são recorrentes na sociedade japonesa ou são algum tipo de fetiche por
lá.
A
segunda falha: esta mesma “hora da verdade” no anime ficou devendo explicações,
como a forma como Chii foi parar no monte de lixo. E da mesma cena vem outra
descontinuidade: o anime não esclarece o que foi feito do disco de memória que
cai no chão quando Hideki recolhe Chii do lixo, nem qual era o conteúdo daquele
disco e nem a diferença que teria feito o fato dele ter sido encontrado. Este é
outro erro da MADHOUSE, porque no mangá a equipe CLAMP dá ampla atenção a este
detalhe. Até antes de ler o mangá eu pensei que, talvez, se o disco fosse
recuperado, Chii não passaria a série toda com aquele perfil de uma adolescente
portadora de autismo.
Terceira
falha: não há explicação a respeito do fenômeno que acontece com Chii quando,
nas duas vezes em que foi sequestrada, tentam tocar em suas partes íntimas. Que
mecanismo de defesa é aquele? Como e porque ele acontece? Será por causa disto
que o governo tem interesse nas Chobits? Ou nenhum momento foi dedicado a estes
esclarecimentos no anime, ou ele chegou aqui no ocidente com cortes grosseiros.
Quarta
falha: não são reveladas as pessoas de carne e osso por detrás dos dois
Persocons (Jima e Dita) que tentam desligar Chii. Nem fica esclarecido se Jimma
é “o deus dos persocons” mencionado por Kojima YoshiYuki. Vou ser extremamente
ingênuo e otimista em acreditar que talvez a CLAMP e a MADHOUSE tenham
concordado em deixar isto como gancho para uma possível continuação da série.
A
quinta falha é a deturpação da estória original na adaptação da MADHOUSE para o
anime, e a razão pela qual a fusão da ficção com a realidade não chega a ser
perfeita em Chobits. Na adaptação para o anime, a participação da senhora Hibya
Chitose assume um caráter covarde, duvidoso e maquiavélico, o que faz dela,
numa definição bem honesta, uma pilantra. Certamente o leitor me perguntaria:
“por quê?” então, vou explicar: numa definição fria da situação, Hibya-san faz
Hideki de “testa de ferro”. Ela transfere um problema que é dela para um
completo despreparado resolver, sem perguntar se ele aceita tal
responsabilidade.
Ela
e Hideki têm o seu primeiro contato já no primeiro capítulo, quando Hideki se
encontra falando sozinho na porta do seu condomínio, dizendo que quer ter uma
persocom. Note que Hideki chega ao condomínio Gabu Jougazaki durante o dia,
passando pelo mesmo caminho por onde ele passa à noite, depois de comprar o seu
jantar. Então podemos entender que Chii ainda não estava jogada ali durante o
dia. O que nos leva à dedução de que ela foi posta naquela pilha de lixo à
noite, para ser encontrada por Hideki. E quem senão Hibya Chitose colocaria
Chii de maneira providencial no lugar certo e na hora certa? Disto se deduz que
ela (só pode ter sido ela), para fugir ao clichê de colocar o bebê órfão na
porta alheia, abandona a própria filha numa área para despejo de lixo para que
Hideki a encontrasse (abandono de incapaz – me lembrou o vilão Félix na novela
brasileira “amor à vida”), correndo o risco de seu plano falhar e Chii ser
levada por outra pessoa. Porém o esperado acontece: Hideki encontra Chii e decide
ficar com ela (bingo!).
Assistindo ao
capítulo 1 percebemos que tão logo Hideki leva Chii para casa e a liga, quem
aparece na porta do seu quarto depois de Shinbo? Ela mesma; Hibya-san. Sob o
pretexto de oferecer a Hideki uma tigela de Kinpira, a kanrinin-san vai checar
se “o peixe mordeu a isca”. Com isto, o “abacaxi” que deveria ser “descascado”
pela cientista Hibya-san vai parar nas mãos de um total analfabeto no que
concerne à informática. Considerando que Hibya é a “mãe” de Chii, podemos dizer
que a “sogra” jogou a “filha” nas mãos do primeiro otário que estava passando.
A
partir daí, Hideki é envolvido numa trama de desventuras em série e come o pão
que o diabo amassou para ensinar a ela uma das coisas mais complicadas da vida,
que é o desenvolvimento do senso comum e que não se aprende da noite para o
dia. Coisas elementares como reconhecer as coisas pelo nome, sair de casa e
saber voltar, não falar com estranhos na rua, não abraçar qualquer um com a
mesma intimidade, não tirar a roupa na frente de qualquer pessoa, cuidar da
própria higiene, cozinhar sem atear fogo no apartamento e uma série de outras
coisas que só se aprende com o tempo. Hideki também assume a responsabilidade
por todas as necessidades materiais e logísticas de Chii, o que inclui desde as
calcinhas que ela precisa até a conta da eletricidade que ela consome (não
pense o leitor que eu esqueci).
Os
problemas gerados pela chegada de Chii na vida de Hideki têm um impacto
imediato e negativo sobre o objetivo da permanência dele em Tókio, ou seja,
Hideki – que já tem dificuldades para se concentrar nos estudo e aprender as
matérias para passar no vestibular, vai ter mais dificuldades ainda tendo que
cuidar de Chii que, dentro do que seria certo, deveria estar sendo cuidada por
Hibya. A primeira evidência disto está no capítulo 5, quando Hideki passa um
dia inteiro sem conseguir estudar, sendo que tirou o dia para isto e, quando
ele precisa comprar um dicionário de inglês, deixa de fazê-lo para comprar um
livro para Chii.
Hideki
é tão humilde que acaba se fazendo servo de uma máquina que deveria servi-lo; e
ele ainda a considera como igual ao ponto de ter a decência e a hombridade de
recusar o dinheiro que Chii ganha com o seu trabalho. Eu entendo que o anime
tem uma proposta de preconizar o comportamento moralmente correto e, não
aceitando o dinheiro de Chii, Hideki estaria ensinando a ela (e a todos os
jovens que vissem a série) a ter um bom caráter, se é que para Chii – enquanto
máquina – existe isto. Entretanto eu penso também que do momento em que os
persocons existem para servir aos humanos e admitindo que muitas das
dificuldades de Hideki estivessem relacionadas à presença de Chii em sua vida,
eu também acharia justo se ele aceitasse. Para ser mais honesto é corente
pensar que seria decente se, diante das circunstâncias nas quais Hideki se
meteu, Hibya-san nem fizesse tanta questão de receber o aluguel do apartamento
que Hideki ocupava. Mas em meio a tudo isto, as únicas coisas que Hibya-san faz
são: interferir anonimamente quando as coisas ficam pretas e repassar umas
roupinhas usadas que já eram da própria Chii, embora ela não lembrasse.
A
sexta falha também vem das incoerências sutis da Kanrinin-san: depois de já ter
sido desativada em seu próprio corpo, Freya, que estava refugiada na
subjetividade de Chii, reaparece na cena do terraço assumindo o lugar da própria
irmã. Isto também acontece no mangá, mas na adaptação para o anime a MADHOUSE
quis ser cuidadosa, pois quem leu o mangá sabe que não ficaria bem reproduzir a
mesma cena no anime. Entretanto, querendo ser cuidadosa, a MADHOUSE cometeu um
descuido: Freya pede a Hibya que apague do sistema tanto ela quanto Chii. Ora,
se ser apagada era tudo o que ela queria, então por que concordou em se
refugiar no corpo da própria irmã quando poderia já ter sido formatada? E por
que ser apagada duas vezes, levando consigo desta vez a irmã que, estando
ausente naquele momento, não podia manifestar-se a favor ou contra este pedido
de Freya?
Que
a MADHOUSE quisesse modificar a cena, isto é perfeitamente compreensível. Que
Chii tenha tido um instante de dúvida e desaparecido, é aceitável somente
mediante a argumentação que ela apresenta no diálogo introspectivo que ela tem
com a irmã depois do seu sistema ter sido formatado, embora não faça sentido
considerando o amor que ela passou a estória inteira cultivando por Hideki. Mas
o pedido e as argumentações de Freya não foram bem planejados pela MADHOUSE e
isto encheu a cena de incoerência.
Porém,
como diria Murphy em sua primeira lei: nada é tão ruim que não possa piorar.
Hibya concorda com a incoerência de Freya e dá a ordem para formatar o sistema
e terminar com a existência das suas duas filhas a despeito dos gritos de
Hideki que pede que ela não o faça. É possível entender e aceitar que Freya
tenha um lado insano. Mas que Hibya Chitose concorde com tal insanidade, é
inaceitável. Na insensatez de Hibya eu enxerguei o equivalente à prática de uma
“eutanásia cibernética”. Onde a MADHOUSE colocou, naquele momento, o sentimento
de mãe de Hibya Chitose eu não faço ideia, pois como “mãe” ela deveria não
atender ao pedido de Freya em favor de Chii, afinal, Freya já tinha tido a
oportunidade de ser extinta e não poderia ser apagada agora, ameaçando a
continuidade da existência de Chii. Seria a coisa mais sensata a fazer, mas a
MADHOUSE também quis imputar mais esta falha de caráter em Hibya-san: a
insensatez. O remate da cena vem quando ela pensa que tudo fica bem dizendo:
“Motoswa-san, me desculpe. Afinal eu fiz você sofrer”. Daí ela vira as costas e
vai saindo como se a dor do sofrimento de Hideki e os seus eventuais prejuízos
não fossem problemas causados por ela! Fácil pra ela, vocês não acham? Eu não
sei quanto a vocês, mas no lugar do Hideki, eu voava na cara dela sem pena.
É
importante enfatizar que toda a deturpação do caráter de Hibya-san é de total
responsabilidade da MADHOUSE, pois nada disso ocorre no mangá.
A
sétima falha: no anime, depois de ter seu sistema formatado, Chii consegue a
façanha de restaurar o seu próprio sistema de maneira totalmente autônoma. Ou
ela tem um disco rígido extra que é imune à formatação, ou Ishiro-san foi mais
longe do que planejou e criou uma persocom com espírito, alma, consciência,
subconsciente e inconsciente. Mas o bom em se trabalhar com a fantasia é que
nela vale tudo, principalmente poder criar o impossível e o improvável. E como
um dos ingredientes do sucesso em uma série é deixar tudo pior antes de ficar
melhor pra apertar o coração dos fãs da série e depois fazê-los chorar com “o
milagre do amor”, esta é uma falha perdoável.
A
oitava falha está nos momentos finais da série. Hideki passa a série toda
sofrendo num dilema moral para admitir, no início do último capítulo, que ele
ama Chii. Entretanto, nem mesmo após toda a aflição do último capítulo, seguido
da declaração de amor entre Chii e Hideki, nem com os acontecimentos dramáticos
que acontecem na sequência dos fatos, nem na última cena do último capítulo o
autor se digna a presentear os fãs da série com um beijo do “casal”. Um
capítulo extra de número 27, que resume os momentos mais dramáticos de Chobits
foi produzido; e nele eu esperava ver o beijo de amor de Hideki e Chii. Pura
ilusão! Os dois não fazem mais do que se abraçarem e andarem de mãos dadas.
A
CLAMP conseguiu o mais difícil: fazer pessoas reais (os fãs da série)
acreditarem na possibilidade de um humano se apaixonar por uma máquina. Por
que, então, não produzir a cena do humano beijando a máquina? Mas esta ausência
de beijo de amor em cenas finais das séries parece ser outra marca da CLAMP,
pois em Kobato acontece a mesma coisa. Que a CLAMP e a MADHOUSE me odeiem se
quiserem, mas isto é a mais descarada hipocrisia se considerarmos as roupinhas
de Chii, a libido de Hideki até em seus sonhos, as roupinhas estilo “hentai”
das persocons domésticas de Minoru-san e as várias outras situações insinuantes
na série Chobits, como a noite em que a professora Shimizu dorme no apartamento
de Hideki para fugir de Shinbo. O único erro de continuidade que foi corrigido
no capítulo 27 tem relação com a razão de Hideki estar em Tókio: o vestibular.
Mesmo assim não fica claro que ele tenha sido aprovado ou não.
Mas
até neste ponto eu acho que a MADHOUSE perdeu a oportunidade de fazer melhor. E
o melhor poderia começar por não produzir o capítulo 12. Com isto, o capítulo
que hoje é o de número 26 se tornaria o capítulo 25 (isto para quem considera a
numeração dos capítulos como o autor desta resenha) e este seria o penúltimo
capítulo, que poderia terminar com Chii e Freya sendo apagadas, já que a
MADHOUSE quis assim. Isto faria os fãs da série sofrerem um pouco mais, se as
exibições dos capítulos fossem semanais.
O
capítulo 26 poderia começar com Hibya-san levando a “filha” pra casa depois de
tê-la formatado no terraço. Hideki, inconsolável, iria para o seu quarto
arrumar as malas para procurar outro lugar para morar enquanto rememorasse tudo
pelo que passou com Chii ao seu lado e, somente na noite seguinte, no momento
dele ir embora, Hibya-san estaria esperando por ele na porta do condomínio com
Chii e este seria o momento para Hideki dizer todas as coisas que disse no
terraço. Daí sim: Chii de voltaria para Hideki; e eles trocariam um longo e
apaixonado beijo na boca, para emocionar os fãs da série e acabar com a
hipocrisia.
Temos
a nona falha (quase me esqueci dela): Jimma (Zema) diz a Hideki que quando Chii
encontra a “pessoa só para mim”, ela se conecta com todos os persocons do mundo
e executa um tipo desconhecido de programa. Tudo acontece e ninguém fica
sabendo a finalidade deste programa. Como quem leu o mangá e viu o filme, eu
vou desfazer esta falha da MADHOUSE: o sonho de Ishiro Mihara era que todos os
persocons fossem como Chii e Freya, mas o governo interferiu nisto. Então as
Chobits foram criadas para: buscar e encontrar a felicidade; armazená-la em
dados e, então, conectarem-se aos demais persocons para transmitir uma
atualização de sistema que tornasse todos os persocons do mundo iguais às
Chobits. Freya falha em cumprir este objetivo, mas Chii obtém sucesso com
Hideki. Ao encontrar “a única pessoa para si”, Chii conhece a felicidade. Os
dados são tantos que Jimma não aguenta o volume (isto acontece no capítulo 25).
Feito isto, Chii se conecta com todos os persocons do mundo para compartilhar
estes dados. Isto foi a realização do sonho de Ishiro Mihara: humanizar todos
os persocons do mundo para assim permitir que eles se aproximassem da natureza
humana também buscassem a felicidade junto dos humanos.
Quem
assiste ao último capítulo deve reparar que, ao reconhecer que Hideki é o
sinônimo da sua felicidade, Chii reluz e os seus olhos adquirem pupilas iguais
às dos seres humanos. O mesmo acontece com os olhos de todos os persocons. É
neste momento que eles se humanizam. Outra prova disto é que Dita fica com o
rosto corado quando Jimma a abraça, e caçoa dela dizendo: “porque você ficou
vermelha? Você é apenas uma persocon”. Ou seja, Dita foi humanizada e nem
percebeu.
Enfim,
chegamos à décima falha. Ela é a última e também a grande falha de Chobits.
Após assistir a série toda, passei dias intrigado tentando entender quais
seriam as coisas que um persocom não pode fazer, se eles são feitos e programados
para fazer de tudo (e Chii ainda tem a incrível habilidade de levitar sem um
mísero par de asas). Em especial, fica obscuro o que a Chii não podia fazer.
Como
eu assisti ao amine com áudio original em Japonês e legendas em espanhol,
procurei e assisti novamente com legendas em português, o que me esclareceu
mais quando Dita conversa com Hideki e explica que quando alguém pratica sexo
com persocons, elas não engravidam. Então entendi que, na adaptação da
MADHOUSE, o que Chii não pode fazer é ter filhos e, uma vez que ela percebe
isto, Chii decide deixar Hideki para que ele não sofresse ao viver com ela sem
poder realizar-se sendo pai.
O
mangá explica esta parte com outro argumento. Como o botão de reinício de Chii
localiza-se na sua vagina, se Hideki tentasse ter relações sexuais com ela, o
botão seria acionado e ela seria reiniciada, perdendo todas as memórias
novamente e voltando ao estado em que Hideki a encontrou. Mas o anime não
aborda este argumento e, neste ponto, eu volto a afirmar que a MADHOUSE abusou
da presunção de que todos os que assistiram à série também leram o mangá.
Abusou também da capacidade intuitiva dos espectadores sem dar mais pistas a
respeito do assunto.
A
série em anime dá pistas de que os persocons de porte compatível com o do ser
humano podem ter relações sexuais. Alguém é ingênuo de acreditar que, se um dia
os persocons existissem de verdade, não haveria uma linha de persocons
prostitutas que fizesse as mulheres infláveis desaparecerem do mercado? Não. Se
o marido da professora Shimizu a abandonou para ficar com uma persocom é porque
os persocons podem fazer sexo com certeza; e talvez melhor que os humanos,
porém sem poder gerar filhos. Isto seria abusar da fantasia.
Mas
o que mais os persocons não podem fazer? Foi tentando encontrar esta resposta
que eu acabei encontrando a falha maior de Chobits.
A
grande falha de Chobits é a razão da série não poder ter uma continuação muito
extensa nem no anime e nem no mangá. E é também outra das razões pelas quais eu
afirmei que a fusão da ficção com a realidade não é perfeita em Chobits.
Trata-se de um detalhe simples: uma das coisas que os persocons não podem fazer
é envelhecer.
Acompanhe
o raciocínio: Chii tem a aparência e o corpo de uma mocinha entre quinze e
dezessete anos; Hideki tem dezoito e está por fazer dezenove (e é outra falha
que no decorrer da série, que o aniversário dele passe sem ser comemorado já
que Chii o ama tanto e procura fazê-lo feliz de muitas maneiras), mas o detalhe
relevante aqui é que Hideki vai continuar envelhecendo como todo ser humano
normal. Ora, um namoro de uma garota de quinze anos com um rapaz de até 20 anos
é aceitável. Se ela tiver dezesseis anos o rapaz pode ter 22. Mas imagine
Hideki com 34 anos – o dobro da idade que se pode atribuir a Chii – ou ainda
com quarenta! Isso mudaria a natureza do relacionamento deles porque seria
visto como um caso de pedofilia. Péssima influência para os fãs da série em
qualquer parte do mundo.
É
claro que no terreno da fantasia tudo é possível. Hideki pode passar no vestibular,
tornar-se um cientista (impossível de se imaginar isto com o Q.I. de Hideki,
mas a fantasia faz estes milagres) e, com o apoio de Hibya-san e Minoru-san,
criar um novo corpo aparentando maior maturidade física para transportar a
memória e os atributos de Chii. Neste contexto, muitas situações dramáticas e
emocionantes poderiam ser criadas. Porém, parece que a mediocridade é
generalizada na MADHOUSE e na equipe CLAMP. Para eles, Chobits é um produto e,
como tal, do ponto de vista financeiro, pode não ter rendido o suficiente para
o conceito “clampiano” de sucesso, ao ponto de motiva-los a um investimento
mais sério; apesar do sucesso de público ser incontestável. Penso que talvez em
Chobits a equipe CLAMP entendesse que estava dando um fim honroso na sequência
iniciada em Angelic Layers e, por causa disto, a série Chobits não teve
continuidade (porque ela já era um fim). Mas isto é só uma elucubração
especulativa. Uma abstração minha.
Quanto
à ressalva relacionada com a sonoplastia, trata-se de um deslize que observei
até mesmo no final do filme O Pequeno Príncipe, mas que não faz disto um
exemplo digno de ser seguido por outros estúdios que aspirem ou não ao mesmo
patamar. Quando a última cena do anime fecha, o espectador ainda está sob o
efeito emocional pretendido pelos criadores da estória. Ao mesmo tempo em que
ele absorve como uma esponja cada segundo final do último capítulo, ele também
sente aquela pequena dor de quem sabe que a estória termina ali. Neste momento,
a sonoplastia comete uma indelicadeza: golpeia os ouvidos de todos com a música
“katakoto-no-koi”, tendo tantas músicas suaves e lindas na trilha sonora para
consolar os ouvidos do espectador. Esta grosseria soa como um inconveniente
grito de gol seguido de um palavrão no meio de um velório. Como mencionado, a
Warner cometeu a mesma indelicadeza no final do Pequeno Príncipe e até hoje eu
sinto vontade de dizer ao supervisor de sonoplastia da Warner naquela ocasião
algumas coisas que ele e o seu equivalente na produção de Chobits são muito
dignos de ouvir.
Enfim,
Chobits é muito bom; e a prova disto é o seu sucesso. Mas podia ter sido melhor
e faltou muito pouco para isto. O público que consome o produto final o avalia
pelos efeitos emocionais que produz e porque, em seu discurso, o produto não
deixa de fazer apologia aos valores mais caros para o povo japonês, para o qual
muitas coisas – já banalizadas pelos ocidentais – são e serão sempre sagradas.
Como
aventura, Chobits cumpre bem o desafio de emocionar e cativar os espectadores,
embora deixe lacunas que só serão preenchidas se o espectador se dignar a ler o
mangá. Seria uma estratégia de marketing? Produzir uma série com falhas de
continuidade para vender revistinhas? Se for isto, a mediocridade é mais
crítica do que eu pensava.
Já
como produto, Chobits pareceu-me um trabalho piloto lançado na mídia como isca
na esperança de que o cinema americano engula o anzol e se interesse em gastar
dinheiro para transformar o rascunho em arte final. Isto pode ser vislumbrado
em pequenos detalhes, como a incidência sutil do inglês no anime, desde a
música de abertura (let me be with you), em algumas cenas dos episódios e no
fato de Chii ser a única persocon branca e loira num país de etnia amarela.
Logo, quem teve esta ideia não estava pensando apenas em destacar Chii das
outras persocons da estória. Então, se um dia uma companhia cinematográfica
europeia ou norte-americana adquirir os direitos de Chobits para produzi-lo
para o cinema com atores reais, ficará mais fácil encontrar uma atriz branca caucasiana
para encarnar a personagem. E se este pensamento for correto, considerando que
só agora no século XXI o cinema americano apostou na megaprodução de Ultraman
que era do tempo da minha adolescência, talvez os meus sobrinhos netos vejam
Chobits virar uma superprodução em algum tempo remoto do futuro quando, talvez,
os persocons já existam de verdade. Este filme, se bem produzido, eu bem
gostaria de ver, mas tenho cá as minhas dúvidas...